A garota do filme

Painel de Ideias

A garota do filme

Nostalgias à parte, lá estava ela... no auge de seus 30 anos, com um amor mal resolvido de 40 e um novo paquera de 25. Não era uma equação fácil de resolver, mas com um pouco de sorte, aqueles lindos olhos azuis do moço mais novo, talvez a ajudassem a esquecer o ex que tanto maltratara seu coração


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Sabe aquela sequência do filme "O diabo veste Prada", quando a atriz Anne Hathaway circula toda maravilhosa pelas ruas de Nova York, transpirando confiança depois de passar por uma grande transformação de cabelo, figurino e estilo? Pois bem...

Naquela noite ela se sentiu a mais perfeita versão da personagem Andy Sachs. Sem roupas Chanel, sem franja desfiada, sem saltos Jimmy Choo... Com sua velha calça jeans desbotada, as sandálias prateadas da estação passada e o corte de cabelo que há anos enquadrava seu rosto, ela deixou a balada se sentindo "a tal".

Já estava de pijama quando uma mensagem chegou no celular: "adorei o seu beijo". Não acreditava... O cara mais lindo da balada elogiando seu beijo depois de a agarrar, meio do nada, sem mal a conhecer...

Seu ego, sempre pouco inflado por tantas decepções amorosas, se encheu novamente, até que pensou "seria esse o motivo do elogio, o fato de ele não a conhecer direito? E quando conhecesse, ele ainda iria querer beijá-la?".

Um barulho da rua interrompeu seus pensamentos. Resolveu ir pra cama logo antes que a neurose voltasse a assombrar sua alegria... Melhor dormir Cinderela do que ficar esperando a mágica da fada-madrinha acabar!

Deitada na cama, repassava a cena com o moço da balada e só conseguia pensar em como, às vezes, a vida imita mesmo a arte e um beijo de cinema não necessita de nada além de atração para acontecer. Eles mal tinham sido apresentados, mas quando seu olhar adentrou o dela, ela percebeu: tinha algo ali...

Dormiu como um anjo. No dia seguinte, de camisola velha, descabelada e sem maquiagem, a Andy-pós-produção de "O diabo veste Prada" permanecia encarnada nela. Acordou Gata Borralheira, mas ainda se sentia "a tal".

Aliás, há muito tempo ela não tinha aquela sensação adolescente de conquistar o "Rei do Baile". Era como ganhar um beijo do filho da vizinha num verão, depois de passar a infância inteira se sentindo desajeitada e criança demais enquanto o paquerava pela rua...

Nostalgias à parte, lá estava ela...no auge de seus 30 anos, com um amor mal resolvido de 40 e um novo paquera de 25. Não era uma equação fácil de resolver, mas com um pouco de sorte, aqueles lindos olhos azuis do moço mais novo, talvez a ajudassem a esquecer o ex que tanto maltratara seu coração.

Era um futuro difícil de prever, divagava ela, quando uma nova mensagem no celular apitou: "quero muito te ver. Topa jantar comigo essa noite?".

Mais uma vez, "O diabo veste Prada" caía como uma luva de grife no seu dia…Lembrou imediatamente da trilha do filme (Suddenly I see, de KT Tunstall), que fala sobre uma menina bonita, mais alta que as outras, que enche cada esquina como se fosse nascida em preto e branco e tivesse sempre uma piscina de luz prateada ao seu redor... a perfeita materialização da mais completa autoestima, a garota que todas querem ser.

De repente ela percebia. Não importava como, nem por quê. Naquele momento, recebendo o convite do moço mais bonito da balada, ela deixava seus erros e traumas do passado para se tornar a garota da música e do filme: exatamente aquela que ela gostaria de ser.

PATRÍCIA ANDRIK, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados