Festas juninas

Painel de Ideias

Festas juninas

Não há fogueira, não tem barracas. Não vai ter quadrilha na escola. Sempre vou a duas festas juninas: a do condomínio e a da escola das crianças. Não são as maiores festas do ano, claro. Mas, com o isolamento social, elas também fazem falta. Aumenta a saudade daquilo que poderíamos estar vivendo


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Adônis era disputado por Afrodite e Perséfone. Zeus, pai dos deuses, determinou que ele passasse uma parte do ano com Perséfone, no mundo inferior, outra com Afrodite, no mundo superior. Surgiram então as estações do ano, quando a vegetação morre no inverno e ressurge com sua força na primavera. Na Europa, o solstício de verão ocorre em junho (este ano, no dia 20). É o dia mais longo, a noite mais curta. Os povos antigos celebravam o solstício com homenagem aos deuses da natureza, pedindo fartura nas colheitas. Na Idade Média, o Cristianismo absorveu essas tradições pagãs e as festividades passaram a ser cristãs.

João Batista nascera seis meses antes de Jesus. Ele anunciou a chegada do Messias e O batizou. O dia 24 de junho, dedicado a Adônis, tornou-se dia de São João, e a fogueira, uma tradição. Fernando Antonio de Bulhões, nasceu em Portugal. Morreu em Pádua, na Itália. Foi canonizado menos de um ano depois, como Santo Antonio. O dia de sua morte, 13 de junho, tornou-se seu dia. Pedro foi um dos apóstolos de Cristo. Tido como o primeiro bispo cristão, morreu no dia 29 de junho, atualmente dia de São Pedro.

Os três dias santos formam a base das comemorações juninas. A cultura popular europeia mesclou as tradições antigas com símbolos religiosos, como a fogueira de São João. No Brasil, os índios já celebravam a agricultura em junho, com cantos, danças e comidas. A fusão dessas tradições nos legou festas com santos estrangeiros e comidas nativas, como milho, pipoca, amendoim e doces da terra. Na primeira metade do século XX, quando mais de 2/3 da população vivia na zona rural, a cultura caipira acrescentou as roupas, danças e costumes.

Me lembro das festas juninas da roça. Eram dias santos, sempre tinha comemoração. Os adultos rezavam o terço, a molecada esperava pelos doces. Fogos não eram comuns. Não tínhamos idade nem dinheiro para isso. A maior atração era a fogueira. Essa não faltava. Lenha e espaço a gente tinha de sobra. Tinha batata-doce na brasa, correria em volta do fogo. Tinha clarão na noite rural. Na escola as festas eram maiores, bem organizadas. Diferente da roça, havia barracas de brincadeiras, a comida era mais variada. E tinha a quadrilha, que a gente nunca faltava. Até hoje o cheiro do quentão me faz lembrar daquelas festas. Há alguns anos, conheci a festa de São João de Campina Grande, na Paraíba. Uma das maiores do mundo. Foi uma experiência. Dura 30 dias, a cidade para. Os grupos vêm de vários lugares para se apresentar. As roupas são caprichadas. No Nordeste, o São João costuma ser a principal festa do ano.

Este ano está diferente. Não há fogueira, não tem barracas. Não vai ter quadrilha na escola. Sempre vou a duas festas juninas: a do condomínio e a da escola das crianças. Não são as maiores festas do ano, claro. Mas, com o isolamento social, elas também fazem falta. Aumenta a saudade daquilo que poderíamos estar vivendo.

SÉRGIO CLEMENTINO, Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras