Nada será como antes?

Em relação à globalização, acredito que o mundo melhorou a comunicação e redescobriu as plataformas de reuniões virtuais. De todos os tipos: comerciais, profissionais, musicais, artísticas. Elas não são novidades. Inédito é o uso em larga escala do que já existia


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Fala-se muito que depois da pandemia do Covid-19 surgirá um mundo inteiramente novo. Exagero! Igual não será. Prefiro pensar que acontecerá uma aceleração de processos que já vinham ocorrendo.

Foram sete as epidemias da era moderna. Contando desde a gripe Espanhola (1918-1919) temos a Asiática (1957-58), a de Hong Kong (1968-69), a Aids (de 1982 até hoje), a SARS (2002-04), a MERS (2012) e a epidemia de Ebola (na África Ocidental em 2014 que recrudesceu em 2019). Algumas se transformaram em pandemias. Duraram meses. Deixam marcas profundas, mas nenhuma delas alterou as estruturas do mundo na época em que aconteceram.

Há quem compare a situação atual à das grandes guerras do século passado. As semelhanças se dão pelo risco de escassez, recessão econômica, limitação da circulação de pessoas e incerteza pelo futuro. Param por aí. Das grandes guerras surgiram uma nova ordem mundial, um novo rearranjo de forças, um novo desenho dos mapas geográficos. Muitos impérios desabaram ao fim das guerras. Delas surgiram a ONU, a OMC, o FMI e o Banco Mundial. Não é o caso agora.

Há quem diga que será o fim do capitalismo, o fim da globalização e o início da hegemonia chinesa. Quanto ao capitalismo, o unilateralismo, fenômeno bem visível nas conferências do clima e no protecionismo comercial, culminou com o slogan da campanha presidencial (2016) de Donald Trump: "America First". Ficou visível quando ele passou a rasteira em todo mundo, inclusive no Brasil, ao comprar material da China para combater a pandemia. Isso porque é amigo...

Em relação à globalização, acredito que o mundo melhorou a comunicação e redescobriu as plataformas de reuniões virtuais. De todos os tipos: comerciais, profissionais, musicais, artísticas. Elas não são novidades. Inédito é o uso em larga escala do que já existia.

Quanto ao domínio chinês, não é algo tão simples. O mundo se divide hoje em quatro forças. Os Estados Unidos, a Rússia, a União Europeia e a China. Os Estados Unidos já vinham se fechando economicamente ao mundo. Romperam com o acordo Trans-pacífico e com o Nafta. No vácuo entraram não só a China, mas a Rússia, a Coréia, a Índia e outros países do sudeste asiático. A União Europeia continua como importante força econômica. Não vejo, pelo menos decorrente desta pandemia, algo no sentido de um país específico começar a tomar conta da economia e mandar em todo mundo.

Uso a seguinte comparação para finalizar meu pensamento: imaginem um motorista que dirige seu carro acima do limite de velocidade na rodovia. Percebe que, mais adiante, aconteceu um acidente na estrada. Diminui a velocidade, passa pelo acidente, dá uma olhada e segue em frente. Tenho minhas dúvidas se ele deixará de correr por causa do acidente. Instintivamente voltará a correr. Assim será com o mundo!

TOUFIC ANBAR NETO

Médico cirurgião, diretor da Faceres, escritor e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras