Painel de Ideias

Arte nos tempos do coronavírus

Destaco as lives dos cantores locais, Zé Neto e Cristiano. Apresentações espontâneas, marcadas pelo carisma da dupla capaz de cortar cabelo e barba ao vivo, ao som das modas e ao ritmo das doações. Trata-se de democratização do acesso à cultura e à arte


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Estamos em quarentena, isolados socialmente, o futuro é uma incógnita. Vidas perdidas, e muitos ainda vociferam ofensas e inverdades difíceis de entender. Páginas printadas em para o memorial das tolices: não basta ler, é preciso printar, imprimir e guardar para, no momento oportuno futuro, confrontar amigos e parentes.

Eu era jovem quando li "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel García Márquez. Ambientada na Colômbia, a narrativa perpassa um surto de cólera e episódios de guerra civil. Cólera e raiva. Duas forças negativas e gigantescas contra o amor. Quem puder, leia.

Agora, o surto é outro, de coronavírus, e a guerra se dá no plano ideológico, com soldados armados para o combate nas trincheiras das redes sociais. Uma batalha perdida. Perdem-se amizades, coleguismos, parcerias profissionais. Tudo em nome de uma polarização política já esgarçada pelo ódio e pela miopia ideológica. Tão diferentes os lados, e tão iguais. No fim, somos humanos, e a empatia está em baixa.

Como já disse Friedrich Nietzsche, temos a arte para não morrer da verdade. A arte pode nos salvar, por exemplo, com a profusão das lives. Por exemplo, a espontaneidade da Rainha da Sofrência, Marília Mendonça: "Chamando todo o rebanho, nossa live vai começar". A cantora conseguiu entreter e angariar doações. É arte, apesar de gente amarga - supostamente dona da verdade estética - condenar o gênero sem nunca ter escrito um acróstico.

Em seguida, é engraçado ver a cantora Anitta ter aulas de francês ao vivo na internet, ampliando a sala para mais de 30 mil alunos. Ela consegue fazer pela educação algo notável: divulgar e popularizar. Vi críticas de quem não é francês nativo, não tem público, não é a Anitta. Só Freud para explicar. Ou Nietzsche, de novo, quando desenha o ressentimento.

Por fim, destaco as lives dos cantores locais, Zé Neto e Cristiano. Apresentações espontâneas, marcadas pelo carisma da dupla capaz de cortar cabelo e barba ao vivo, ao som das modas e ao ritmo das doações. Trata-se de democratização do acesso à cultura e à arte. Entretenimento gratuito, solidariedade. Mais gente poderia fazer igual.

Enfim, é preciso resgatar o que há de humano em nós. Mais arte, mais altruísmo, mais correntes da leitura, da postagem de álbuns e de livros, de pão caseiro. Menos ódio, menos fake news, menos munição para ataques futuros - o memorial dos prints. A internet imortaliza, e muita gente vai tentar apagar a marca da vergonha, o crime da conivência, o pecado da omissão, a tontice de quem não pesquisa antes de repostar inverdades criminosas.

Todavia, restarão registros, restará cólera. Restará a memória vívida de quem escolheu ser treva quando o mundo precisa tanto de luz, de amor, de filantropia, de direitos inalienáveis à vida, à saúde, à arte. Só gratidão aos artistas pelos momentos de paz nos tempos de pandemia e de pandemônio.

WASHINGTON PARACATU, Professor de Língua Portuguesa e Redação em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras