Painel de Ideias

Sobre a escrita

Ser humilhado (mesmo que por dentro) faz parte do alicerce natural ao escritor. Ninguém começa por cima. E enfatiza: Se você não costuma ler, então não tem gosto, nem ferramentas para escrever. A leitura é a usina que forja a escritura


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Editores e fãs insistem a Stephen King que ele revele segredos que o fizeram um estupendo contador de histórias. Aspeio "contador de histórias" porque certos analistas influentes, em regra medianos, se recusam a tê-lo como um "literato". Isso a despeito dos mais de 70 romances e centenas de contos publicados. Ressalta-se o portentoso 'A Dança da Morte' (2005, Ed. Objetiva), um épico que pressagia uma epidemia mundial. Lidos aos quatro ventos, seus livros atingiram 400 milhões de cópias e suscitaram roteiros de filmes famosos. Enfim, assentiu em produzir 'Sobre a Escrita' (2015, Ed. Objetiva). A revista americana Time Magazine o aponta como uma das melhores obras de não ficção dos últimos anos.

É um livro memorial, provocante. Faço-lhe uma pequena e subjetiva descrição. Diz que não há receita teórica que amolde um poeta ou prosaísta. Vai direto à questão: "Se você é um escritor ruim, ninguém vai convertê-lo em um bom, nem mesmo em competente. Se é bom e quer ser incrível... deixa pra lá". Seja operário braçal no mundo das letras e nem pense que uma musa vai cair do céu e espalhar pó de pirlimpimpim em sua sala. Ela ficará por perto fumando charuto e admirando os troféus que você ganhou num boliche. Então, verta suor e tente fazer dum bom assunto um belo texto, pois um não vive sem o outro.

Ser humilhado (mesmo que por dentro) faz parte do alicerce natural ao escritor. Ninguém começa por cima. E enfatiza: Se você não costuma ler, então não tem gosto, nem ferramentas para escrever. A leitura é a usina que forja a escritura. Oferece exemplos: "Ler durante as refeições é considerado algo rude pela sociedade, mas se você pretende ser escritor, a rudeza deve ser a penúltima das preocupações". A última é achar que já se leu o bastante e não precisa ler mais. Pois é difícil haver um redator de pouca leitura e leitores que gostem de sua escrita. Livros emergem de outros livros.

Em estilo elegante, até jocoso, porém sarcástico, Stephen King desenha com tintas arrepiantes muitos professores-doutores de literatura. E o faz em alerta aos novatos. Em geral, observa, investem tudo para parecerem liberais, politicamente corretos, mas são autênticas ostras no campo em que militam. Odeiam escritor bem sucedido e gastam a inteligência "na morte da bezerra". Compõem uma casta tão antiga quanto o esnobismo que os alimenta. Afastam os alunos da literatura. Autoritários, encenam-se graves, filosofais, mas lhes faltam originalidade e independência intelectual. Não conseguem produzir três parágrafos sem se escorarem num estudioso realmente sério e arguto.

Por fim, recomenda: Olhe para fora de si. Todos nos consideramos geniais, pois "a câmera está em nós, baby". Desfazendo-se do sabe-tudo pernóstico, narcisista, talvez não sejamos escritores brilhantes, mas fugiremos de ser ruins, medíocres.

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos