Painel de Ideias

Não tem tempo nem piedade

Escrever que temo pela minha família amada e pelos meus amigos. Escrever que o Brasil está absolutamente perdido, feito uma nau errante em noite de tempestade e mar bravio. Escrever que o olhar triste das pessoas sobre as máscaras revela um veio de angústia e medo


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Do que eu sou feita? De escrever. É minha matéria, sentimento e prazer. Bem melhor que falar, escrever é exercício que irriga o coração. Precisa reflexão, construção. É memória, alento. Para mim escrever é cura. Também é terapia que acalma a dor, cancela o ódio e traça contornos nítidos aos lampejos, clarões da alma. Nesses últimos e medonhos meses, escrever tem sido mais do que nunca, refúgio e escape. Escrever que eu tenho pânico de falta de ar. Que me afligem as cenas de pacientes entubados nas UTIs. Escrever que eu choro todas as noites com os números avassaladores de mortos no Brasil e no mundo. Escrever que temo (um frio corre a minha espinha) pela minha família amada e pelos meus amigos. Escrever que o Brasil está absolutamente perdido, feito uma nau errante em noite de tempestade e mar bravio. Escrever que o olhar triste das pessoas sobre as máscaras revela um veio de angústia e medo.

Eu preciso escrever que ninguém sabe o que está por vir, mas que todos já se tocaram que nada mais será como antes. É urgente escrever que alguns malditos estão roubando dinheiro que seria para comprar respiradores. Que outros tantos amaldiçoados estão superfaturando equipamentos que salvam vidas. Que no Brasil campeão das carências, a maior de todas elas ainda é o caráter. Que a nossa derrota mais grave é a bancarrota moral. Há muito estamos na falência da ética e dos bons valores. O estigma da canalhice parece tão natural. Tão brasileiro.

Eu preciso escrever. Escrever que hoje as tentativas de por fim a misteriosa e desafiadora Covid-19 mais parecem o ditado popular: "Deus dá a farinha, o diabo fura o saco." As soluções ainda são frágeis, enganadoras. São amadoras perto de um profissional e astuto coronavírus. Apenas boas e esforçadas intenções que não resistem a um espeto ou garfo. Escrever que a fé nunca foi tão exigida. Que a nossa dependência do favor e do amor de Deus nunca foi tão escancarada. Que nós, seres humanos em toda a superfície da Terra, estamos completa e absolutamente a mercê da misericórdia divina.

Como é bom escrever. Porque escrever ainda é permitido. Escrever que hoje eu tenho ar em abundância entrando pelos meus pulmões. Estou consciente e respiro muito bem. Meus rins e o coração também estão ok. É um luxo que milhares não têm nesse exato instante. Agradecida, eu escrevo. E encerro com a poesia do grande Toquinho. Porque hoje a sua Aquarela é o que temos de mais suave para desenhar o futuro. "E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida depois convida a rir ou chorar. Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá. O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar."

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados