Painel de Ideias

A coerência musical de Emily Remler

Ela sempre foi dona de uma musicalidade esplêndida e soube explorá-la com inteligência. Sua capacidade de pensar a composição e o improviso de forma pouco ortodoxa e muito coesa faz com que seus álbuns sejam audição obrigatória para músicos que pretendem ser improvisadores fluentes


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Embora não seja tão conhecida do grande público quanto, de fato, merece ser, Emily Remler (1957-1990) sempre causou impactos significativos no cenário jazzístico a partir do início dos anos 1980. Com sete álbuns gravados, e lançados em menos de uma década, essa guitarrista sempre buscou equilibrar virtuosismo, criatividade e curiosidade. Com esse éthos artístico, Remler produziu uma discografia audaciosa e coerente.

Sobre o jazz de Remler, Brian Morton e Richard Cook dizem, no livro "The Penguin Jazz Guide: The History of the Music in the 1001 Best Albums", que "(…) tinha-se a sensação ao escutá-la de que havia outra dimensão, outra personalidade criativa, à espreita. Se ela acabaria emergindo, ou se ela seria sublimada em situações mais convencionais, é o grande chamariz que tem estimulado o pequeno culto em torno da música e da personalidade de Remler desde 1991".

O fascínio que a música de Remler provoca explica-se, do ponto de vista técnico e estrutural, pela presença, como explicam Morton e Cook, de "solos incisivos" e de um "fraseado elástico". Podemos ouvir isso em "Perk's Blues", "Firefly", "Pocket Wes", "Waltz for my Grandfather", "Ode to Mali", "Mocha Spice", "Gwendolyn", "Mozambique", "Ballad for a Music Box", "You Know What I'm Saying", "Song For Maggie" e "Carenia". Embora essas músicas explorem diferentes elementos e influências, o que aproxima essas composições é justamente a sua mistura consequente de influências às vezes bastante distintas.

Dito de outro modo, embora Remler buscava incorporar um novo vocabulário à sua linguagem jazzística, ela jamais perdia de vista as convenções e a história do jazz. E isso faz toda a diferença no seu som. Como explicam Morton e Cook, "(…) a música de Remler era um hard bop robusto, profundamente influenciado por Wes Montgomery, (...) sempre com a sensação de que alguma coisa ainda não tinha sido proferida". Nesse sentido, os discos de Remler são permeados por certa tensão artística criada pela expectativa sobre o que ainda há de ser experimentado e expresso por essa guitarrista de estilo tão ímpar. Há sempre nos discos de Remler a sensação de que é sempre ela quem controla o tempo todo o seu discurso musical, levando o ouvinte para onde ela bem entende. E esse é um traço artístico dos mais raros.

Remler sempre foi dona de uma musicalidade esplêndida e soube explorá-la com grande inteligência. Sua capacidade de pensar a composição e o improviso de forma pouco ortodoxa e muito coesa faz com que seus álbuns sejam audição obrigatória para músicos que pretendem ser improvisadores fluentes. A discografia de Remler, portanto, mostra que é perfeitamente possível unir, por meio do estudo, ecletismo e consistência estilística. Esse é o grande legado musical/artístico dessa guitarrista de talento absolutamente inabitual. Sorte de quem quiser e souber ouvir a obra dela devidamente.

FERNANDO APARECIDO POIANA, Professor de língua inglesa e músico em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras