Painel de Ideias

Sobre Jorge

Não raro, pedia licença para interromper a aula, pois o verdejante inquieto de seus olhos cristalinos precisava se certificar de que Ju havia chegado bem a São Paulo, ou que Marcela já o estaria esperando na saída da escola


Letícia Flores
Letícia Flores - Reprodução

Eu tinha um plano; um plano textual, mesmo. Trataria da importância cada vez mais latente de se conhecer as ferramentas para bem interpretar os contextos, os discursos, as pessoas, o mundo. Título, fio condutor da reflexão, começo, meio e fim: estava tudo engatilhado. Entretanto, assim como narrativas literárias podem nos surpreender, a vida também tem seus planos engatilhados: começo, meio e fim.

Esta manhã, que para você que me lê já é ontem, entre uma urgência banal e um compromisso virtual, recebi a desoladora notícia de que a narrativa de um ex-aluno muito querido havia chegado ao seu desfecho.

Jorge era um livro de leitura macia, agradável, acolhedora. Protagonista da própria história, geria, com ajuda de sua esposa e de dona Inês, uma família amorosa, educada, forjada pelo respeito. Nas manhãs de segunda, preparava a mesa do quintal para nossas aulas, e, entre um café e um pronome, entre um gole d'água e uma lembrança de viagem ao Bel Paese, apreciávamos a sapecagem dos pássaros que desenhavam canções nos vasos dos seus vibrantes gerânios - a flor que o lembrava sua mãe.

Não raro, pedia licença para interromper a aula, pois o verdejante inquieto de seus olhos cristalinos precisava se certificar de que Ju havia chegado bem a São Paulo, ou que Marcela já o estaria esperando na saída da escola. Jorge era o pai que eu não tive - não porque o meu me falte, e sim porque é raro um genitor transbordar tanto amor e zelo e presença por suas crias. Na mesma proporção, exalava uma admiração apaixonante por Maria Letícia, sua companheira de longa estrada.

Mas quem sou eu para falar desta personagem de voz retumbante e, ao mesmo tempo, acolhedora? O que sei de Jorge é apenas um retalho, fragmento das confissões sinceras de um humano verdadeiramente humilde, pai amoroso, marido zeloso, patrão brincalhão, juiz inquestionavelmente justo. Justiça, inclusive, era a palavra-chave que abria as portas dos enredos que costuraram sua digníssima história. Dolorosamente irônico é admitir o quão injusto pode ser o destino que, hoje, escreve a última página da sua trajetória.

Felizmente, como bons livros, Jorge semeou ensinamentos insucumbíveis, regados a um amor genuíno, que rasga a linearidade do tempo, transpõe a secura da morte, floresce na tristeza amarga de sua partida. E é com o coração esfrangalhado que fecho os olhos para sentir bater no meu peito a dor de suas filhas, especialmente a mais velha. Temos a mesma idade, opiniões parecidas e a sorte de termos sido apresentadas a tempo. Sinta-se abraçada, Ju.

Espero ser perdoada pela minha entrada invasiva nessa fenda entreaberta que a intempestividade da vida nos impõe, mas não sei lidar com a dor sem escrevê-la… ou plantá-la. Por isso, até que eu aprenda a cultivar gerânios vermelhos, sua essência será tanto mais viva quando da presença da justiça, este valor inabalável sobre o qual você teceu sua história, querido amigo.

A Maria Letícia, Juliana, Marcela e todos amigos e ex-alunos que me permitiram beliscar um 'taglio' de suas histórias, que hoje compartilham da mesma dor: meus profundos, sinceros e eternos sentimentos. Que o tempo preencha essa ferida insuportável com a terra temperada pelas palavras de nosso querido Jorge, e que, um dia, a lembrança da maciez de sua voz nos conforte com a mesma intensidade que o verde de seus olhos floresça em nossa tristeza.

LETÍCIA FLORES, É professora de Língua Portuguesa, revisora e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras