Painel de Ideias

O nosso Tarzan

De viagem em viagem, de noitada em noitada, Tarzan transformou-se em personagem marcante de uma Rio Preto que se impressionava com figuras que transitavam pelo melhor do imaginário das pessoas comuns


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Durante o dia, ele podia ser visto a bordo do jipe azul com capota de aço, identificado pelo letreiro na lataria: "lâmpadas Phillips". À noite, quando não estivesse em companhia da namorada assistindo a um sucesso como "Assim Caminha a Humanidade" no Cine Rio Preto, estaria sentado a uma das mesas do sofisticado Bar Jussara, do Juca Buchala, bebericando um scotch e ouvindo a cantora goiana que tinha o mesmo nome do bar soltar a voz em coisas como "Lábios de Mel", de Ângela Maria.

Tinha lá seu 1m90 de altura, físico atlético, cabelos glostorados penteados para trás e "abotoados" na nuca. Inevitável a comparação com o ator romeno-americano Johnny Weissmuller, semelhança que lhe valeria o apelido pelo qual, muito mais do que pelo próprio nome, se tornaria conhecido por essas paragens: Tarzan.

Aí pelas metades dos anos 1950, trabalhar como viajante de uma prestigiosa multinacional como a Phillips era mais do que um sinal indicador de prestígio e abastança - funcionava como uma chancela da qualidade de caráter e índole, uma espécie de selo de garantia que certamente atiçava os sonhos das rio-pretenses casadoiras. A essa invejável condição profissional e aos atributos físicos que o assemelhavam ao rei das selvas, nosso Tarzan ainda aliava outras duas particularidades muito impressionantes para o eleitorado feminino.

A primeira delas, um estilo elegantemente inconfundível de se vestir, pontuado por costumes de corte impecável, quase sempre em linho branco sobre finas camisas também brancas e arrematadas por abotoaduras douradas, as gravatas coloridas cuidando de romper a monotonia cromática, tudo sustentado sobre lustrosos sapatos de cromo alemão. E, como convinha a alguém que viajasse pelas estradas empoeiradas da região, uma peça que remetia aos personagens de Humphrey Bogart no cinema - o guarda-pó.

A segunda peculiaridade de Tarzan, perceptível apenas a quem o olhasse com atenção, era que um de seus olhos era azul e o outro, verde. O olhar exótico contribuía para aumentar-lhe a popularidade entre as mulheres, a ponto de ser disputado a tapas em suas freqüentes incursões pela zona da Esplanada.

E assim, de viagem em viagem, de noitada em noitada, Tarzan transformou-se em personagem marcante de uma Rio Preto que se impressionava com figuras que transitavam pelo melhor do imaginário das pessoas comuns. Casou-se com moça de tradicional família rio-pretense, mas a vida a dois não durou mais tempo do que poderia mesmo permitir a sua incorrigível vocação boêmia.

Certo dia desapareceu e não mais foi visto. Os amigos nunca mais tiveram notícia, até uma tarde quente e modorrenta de um verão qualquer do comecinho dos anos 1980, no boteco do Carlos, na rua Coronel Spínola, ali pelos lados da Redentora. Um dos velhos conhecidos do Tarzan entrou para tomar uma Coca-Cola, quando ouviu de um dos dois homens que já estavam lá dentro:

- Ô gente boa, dá pra pagar um lavradão aí para nós?

Assentiu com a cabeça, autorizando o botequineiro a servir a cachaça e só então pôde notar que eram dois maltrapilhos, roupas imundas e malcheirosas, cabelos desgrenhados e sujos. Quando olhou mais atentamente para um deles, foi alertado pelo detalhe revelador dos olhos de cores diferentes.

Reconhecido, Tarzan agradeceu a gentileza da cachaça e, antes de sumir novamente, ainda informou ao velho amigo seu novo endereço:

- Eu moro nos fundos do mercadão, em São Paulo. Embaixo daquele monte de caixa de papelão que tem por ali. Passa por lá qualquer hora...

JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos