Editorial

Inimigas da saúde

O material usado para produzir os vídeos reúne o que há de mais fantasioso em relação à pandemia do coronavírus


Editorial
Editorial - Reprodução

É espantoso. Mesmo com todos os alertas, avisos, estudos e providências adotadas, as notícias falsas continuam atraindo a atenção de milhões de pessoas no mundo todo e, claro, fazendo vítimas. Nestes tempos sombrios, as fake news pioram muito a situação de calamidade em escala global na área da saúde. Surgiu uma nova e muito preocupante comprovação do poder de disseminação dessas mentiras.

Um estudo feito pelo Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (Cepedisa) da Universidade de São Paulo, em parceria com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, da Universidade Federal da Bahia, e do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo, revelou que as redes com grande volume de desinformação tiveram três vezes mais acessos e visualizações do que as redes com conteúdos verdadeiros sobre a Covid-19.

Os pesquisadores analisaram mais de 11 mil vídeos publicados em plataformas de vídeos nas redes sociais entre fevereiro e março e mais de 12 mil peças entre março e maio. Pois os conteúdos mentirosos tiveram mais de 73 milhões de visualizações, enquanto que os vídeos com informações reais, checadas e verdadeiras tiveram pouco mais de 27 milhões de visualizações. São exibidos por canais que contam com milhares de pessoas inscritas. É um escândalo.

O material usado para produzir os vídeos reúne o que há de mais fantasioso em relação à pandemia do coronavírus, além de espalhar preconceitos, denunciar conspirações fantasmas, apelar para o pânico. Os estudiosos identificaram as redes principais por onde trafegam esses materiais inventados e que chegam a milhões de brasileiros. E tem de tudo nesse lixo virtual, desde ataques à imprensa até teorias conspiratórias internacionais.

Um aspecto extremamente nocivo é a proliferação de 'notícias' que vão contra tudo aquilo que a ciência prega. Há canais que só exibem conteúdo que rejeita descobertas e orientações científicas ou analisam o quadro de contaminação pandêmica sob o ponto de vista religioso. Outros usam dados científicos adaptados ao discurso, isto é, têm uma abordagem seletiva.

Um exemplo de fake news na pandemia foi a 'informação' de que o governo do Estado de São Paulo havia decretado o bloqueio total, ou 'lockdown', em São Paulo, o que foi desmentido.

O resultado de tudo isso é o enfraquecimento do combate à Covid-19 pois, como não há vacina, depende-se quase que unicamente do comportamento das pessoas em relação à doença e às formas de prevenção.

As fake news não atrapalham só a saúde pública. Elas enfraquecem também a democracia. É preciso denunciá-las e combatê-las sem trégua.