Renda em queda

ARTIGO

Renda em queda


Hipólito Martins Filho
Hipólito Martins Filho - Guilherme Baffi 15/10/2018

O Brasil não é um dos países mais pobres do mundo e, sim, um dos mais desiguais. É muito difícil aceitar essa desigualdade dado os imensos privilégios que temos em relação à grande maioria dos demais países. O nosso processo de colonização, a longa e torturante escravidão e o capitalismo tardio atrasaram de forma dramática a nossa inserção no mundo desenvolvido, deixando cicatrizes profundas, entre elas a desigualdade social.

Já sabemos que a pandemia vai complicar um pouco mais o que já era ruim, a mobilidade social tende a piorar. Estudo feito pela Tendências Consultoria sobre a distribuição de renda nacional mostra projeções céticas. Em 2020, 3,8 milhões de famílias - cerca de 15 milhões de brasileiros - devem ir para a classe D e E, principalmente das regiões Norte e Nordeste.

O auxílio emergencial amenizou o impacto da pandemia entre os pobres e miseráveis, mas não impediu a queda da renda na classe média. Em 2020, a classe média deve perder cerca de 1,8 milhão de famílias.

Como vimos em artigo anterior, o grande fator de empobrecimento será o desemprego dos menos escolarizados. Nos últimos anos, a informalidade cresceu por todo o País, atingindo a média de 40%. Entre as famílias das classes D e E, a informalidade nacional chega a 57,6%.

Mas, no Nordeste esse índice é de 65,1%, enquanto no Norte chega a 70%. Segundo a pesquisa, a massa de renda total deve sofrer forte retração no biênio 2020/2021 -especialmente na classe média - deve voltar a crescer 1,7% ao ano até 2024. Mas, de modo desigual.

Para a classe A, composta por uma porção maior de empregadores, com ganho vinculado à lucratividade das empresas, o crescimento deve ser de 1,9% ao ano. No setor de serviços, 83,9% dos ocupados estão nas classes C, D e E, e 42% possuem escolaridade até o ensino médio.

O inchaço das classes mais pobres mostra a necessidade de programas de assistência e transferência de renda. Os pesquisadores mostram que a vulnerabilidade da classe média e a desaceleração da mobilidade social são reflexos do que vem ocorrendo e só são sustentáveis se combinadas a programas de desenvolvimento, capacitação e produtividade.

Não podemos ignorar que os novos investimentos (internos e externos) dificilmente ocorrerão de forma plena em países com estrutura de renda tão baixa, alimentando o círculo vicioso da economia: baixa qualificação, poucos empregos, salários precários.

O governo deverá tomar cuidado ao definir um novo programa de renda, seja Renda cidadã, Renda Brasil ou Renda fome, estar atento ao equilíbrio fiscal. O novo projeto de política social deve ser de longo prazo, planejado e que mitigue verdadeiramente as reais necessidades dos desamparados e não apenas um projeto aleatório, eleitoreiro, sem consistências.

O que pode dar suporte a esse projeto social são as reformas estruturantes tais como a reforma administrativa, tributária, desenvolvimento industrial. Se nada for feito nesse sentido a pandemia passará e os pobres continuarão.