Em prol da humanidade

ARTIGO

Em prol da humanidade

A presença do Coronavírus em nosso organismo estimula uma resposta imediata para fins de defesa imunológica


No dia 13 de outubro comemora-se o Dia Mundial da Trombose, uma doença caracterizada pelo entupimento da circulação venosa e arterial por um coágulo de sangue. Além de problemas circulatórios e dificuldade no retorno venoso do sangue em direção ao coração, um quadro trombótico pode evoluir para a tão temida embolia pulmonar, doença responsável por inúmeros casos de internação hospitalar e notificações de morte de origem cardiovascular. De acordo com a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia, estima-se que uma a cada quatro pessoas em todo o mundo morrem por problemas de saúde decorrentes da trombose. Nos Estados Unidos, aproximadamente 900 mil pessoas por ano são acometidas por fenômenos trombóticos e em média 100 mil pessoas evoluem para o óbito, superando as notificações por AIDS, câncer de mama e acidentes automobilísticos. No Brasil, poucos registros abordam a prevalência dos eventos tromboembólicos em nossa população.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, cerca de 180 mil novos casos de trombose venosa surgem no Brasil a cada ano. Dados provenientes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu apontam que a prevalência de quadros tromboembólicos pode variar de 3,9% a 16,6% em pacientes internados. Durante a pandemia, houve um aumento significativo da incidência de eventos tromboembólicos, particularmente naqueles pacientes internados em unidades de terapia intensiva por sintomas respiratórios, com piora expressiva do quadro clínico e evolução insatisfatória. Estudos internacionais publicados a partir de pequeno grupo amostral identificaram que, em média, 49% dos pacientes positivos para Covid-19 internados em unidades de terapia intensiva apresentam fenômenos trombóticos. Destes pacientes, 87% evoluíram com embolia pulmonar, 6,6% com acidente vascular cerebral, 2,6% com trombose arterial, 4% com trombose venosa profunda e 14% com morte cardiovascular. Os pacientes idosos, obesos, hipertensos, diabéticos, cardiopatas e imunodeprimidos apresentam elevado risco de evoluir com trombose arterial, trombose venosa profunda e embolia pulmonar, caso ocorra infecção pulmonar pelo Coronavírus. Portanto, todo paciente que contempla o grupo de risco para o Covid-19 deve estar atento a sua saúde vascular, especialmente ao risco de desenvolver eventos tromboembólicos.

A presença do Coronavírus em nosso organismo estimula uma resposta sistêmica imediata para fins de defesa imunológica, caracterizada pela migração de células inflamatórias que promovem a formação de imunocomplexos, a liberação de citocinas e a consequente lesão da parede endotelial do sistema respiratório. A tempestade Inflamatória associada às comorbidades resulta em um perigoso quadro de hipercoagulabilidade, com formação de micro e macro trombos que se disseminam por todo o sistema circulatório, comprometendo o sistema arteriovenoso cerebral, pulmonar, cardíaco e dos membros inferiores. A progressiva falência múltipla de órgãos conduz o organismo a exaustão, com evolução para a morte. Neste momento de conscientização e prevenção da trombose, nossas esperanças recaem sobre a rápida introdução clínica, em âmbito de saúde pública mundial, da vacina contra a Covid-19, que neste momento representa uma prioridade mundial. Além de controlar a disseminação e os efeitos virais em nosso organismo, a vacina pode evitar os gatilhos responsáveis pela explosão tromboembólica associada à Covid-19, atuando em prol da humanidade.

*Dr Sthefano Atique Gabriel, Médico vascular e professor universitário