O gestual dos candidatos

ARTIGO

O gestual dos candidatos

Ao contrário da linguagem verbal, a linguagem corporal não mente


Precisamos estar atentos não apenas aquilo que as pessoas falam, mas também à sua linguagem corporal.

Em ano de eleições, precisamos estar ainda mais atentos a esses sinais.

No livro "O Corpo Fala", o escritor Pierre Weil e o caricaturista Roland Tompakow, escrevem um guia prático para iniciantes de como ler a linguagem corporal dos outros e a própria.

Mais de uma vez as sobrancelhas são objeto de atenção no livro, trazendo exemplos de que quando estás estão franzidas, se tem uma ideia de reprovação. O livro não trata apenas das sobrancelhas, mas do corpo todo, cabeça, braços, ombros, pernas, joelhos, pés, mãos, e por ai vai.

Sempre quando eu olho para as fotos dos candidatos nas redes sociais ou nesses "santinhos" que emporcalham as ruas, eu reparo nas sobrancelhas. Se o candidato tem o cenho franzido, eu desconfio.

Ao contrário da linguagem verbal, a linguagem corporal não mente. Claro que com o tempo não apenas políticos, mas todas as pessoas astutas educam sua linguagem corporal.

E cenho franzido me passa a impressão de uma pessoa raivosa.

O ex-presidente Lula sofreu três derrotas até conseguir se eleger presidente, fato ocorrido em 2002. Em todas as eleições anteriores, Lula se apresentava ao público com o cenho franzido. Para ser eleito, Lula fora obrigado a abandonar a retórica agressiva, onde parecia estar se comunicando apenas com os petistas, e passar para uma retórica que ficara conhecida como "Lulinha paz e amor" e assim passou a dialogar não só com os petistas, mas com toda população.

O Presidente Jair Bolsonaro é outro político que se apresenta geralmente com o cenho franzido, embora algumas vezes, e não raras, seja flagrado dando risadas e fazendo piadas. No caso de Bolsonaro, ao contrário de Lula, desconfio que o discurso raivoso tivera que ser elevado no período eleitoral, e não reduzido, para assim garantir o apoio de uma parcela do eleitorado mais radical, que já se identificava com esse tipo de discurso.

Em agosto do ano passado o sociólogo Bolivar Lamounier escrevera um artigo interessante denominado "A política no tempo da raiva", onde ele traça um paralelo entre Lula e Jair Bolsonaro, e questiona se essa política raivosa se trata de um fenômeno passageiro, ou se veio para ficar.

O sociólogo pontuou: "Haverá entre eles alguma semelhança que se possa descrever como ideológica? Para responder afirmativamente, precisamos reduzir o termo ideologia à sua expressão mais banal, a um simples anti-intelectualismo, uma vez que ideias articuladas não são o forte de nenhum dos dois"

É interessante essa constatação de que pessoas raivosas tem dificuldade em propor ideias.

Integram ainda o time dos de cenho franzido Ciro Gomes, Guilherme Boulos e outros mais. Lembrem-se de como estava o cenho de Orestes Quércia naquela discussão com o jornalista Rui Xavier no programa Roda-viva "É mentira, é mentira!"

Eu tenho medo dessas pessoas, elas agem como se o tempo todo estivessem corretas, possuidoras do monopólio da moral e da ética. Não aceitam a crítica, nem a discordância.

Estão o tempo todo armadas e preparadas para se defender. Qualquer um que lhes diga uma coisa com a qual discordem, será alvo de sua irá. Geralmente utilizam as redes sociais e entrevistas para atacar.

Como pontuou Lamounier, são pessoas dotadas de pouco intelecto, tendo dificuldade em formular ideias, projetos, visões de um mundo. Fazer uma autocrítica é algo impensável.

Quem lida mal com críticas e piadas não deve representar o povo. As pessoas que estão no poder precisam se sentir desconfortáveis, caso contrário, é sinal de que há algo de muito errado com a democracia.

Prestemos em 2020 atenção aos detalhes, e elejamos ao esquecimento os raivosos de cenho franzido, que vivem do ataque, que representam o atraso, que tem dificuldades em moldar o futuro positivo como merecemos.

Matheus Kruger, Advogado; Guapiaçu