'Marido visita'

ARTIGO

'Marido visita'

Por que a maioria dos homens, ainda hoje, veem os serviços domésticos como sinal de humilhação?


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Querida leitora, caro leitor, tudo começou quando eu estava ouvindo o relato de uma mulher esgotada e cansada da vida que leva...

Ela narrava o seu drama quando, de repente, disse-me que o seu marido era uma verdadeira visita em sua casa. Tudo o que ela pede para ele, do tipo: pega tal coisa para mim?!, é motivo de incômodo total para a criatura. Visivelmente, ela percebia que todas as vezes que pedia um pequeno favor num momento de necessidade, ele ficava de mau humor, e se fizesse, reclamava. Daí ela começou a pedir a sua ajuda, além do por favor, para ele não sentir que estava sendo subserviente a ela se, acaso, precisasse pedir-lhe algo neste meio tempo.

Você pode até estar pensando: peraí, Denize, visita que é visita não vai se importar em fazer um favor para a dona da casa; ao contrário, será um prazer! Sim, você está certo! A visita aqui é porque, em se tratando dos serviços da casa, ele não contribui em nada. Ela faz tudo sozinha.

Podemos então pensar: de onde vem esta cultura de que os serviços da casa são de responsabilidade da mulher? Certamente, veio sendo passado de geração em geração. É aquela triste história de que as mulheres tem o dever de cuidar da casa e dos filhos enquanto os maridos saem para trabalhar. Mas, e as mulheres que saíram para trabalhar fora e ajudar os maridos e ficaram com as responsabilidades da jornada dupla: fora e dentro de casa?

Só compreenderá as dificuldades e o trabalho de uma casa quem os fizer. Chegar e encontrar uma casa limpa e organizada, comida na mesa, roupa lavada e passada, jamais fará com que alguém, de fato, saiba valorizar tamanho esforço.

A questão, então, é: por que a maioria dos homens, ainda hoje, veem os serviços domésticos como sinal de humilhação, de "coisa" de mulher? Eu não sei se você pensa como eu, mas tenho acompanhado alguns familiares envelhecendo... O homem que nunca ajudou, em nada na casa, nunca arrumou uma cama, nunca cozinhou, nunca se dignou a lavar uma roupa, a ajudar numa faxina, enfim, nunca se dispôs a realizar um dos trabalhos em favor da própria vida, do própria lar, do próprio bem estar de si e de outros, um dia envelhece, fica sentado, "inativo", em estado parasitário, vendo a mulher, ativa, exercitando a mente, o corpo e o emocional nas atividades que realizou a vida inteira. E isto não é nada bom para ele.

Enfim, é terrível ter que chegar à conclusão de que por trás de toda esta cultura que mencionei anteriormente, existe um vício cruel e frio nestas mentes com um dos sinais de psicopatia, "incapacidade para amar e se relacionar com outras pessoas com laços afetivos profundos", mas que vamos identificar como orgulho, sentimento de superioridade sobre uma ou mais pessoas.

Quantos casamentos, na atualidade, não chegaram ao fim, porque as mulheres que saíram para trabalhar fora, ao se depararem com esta realidade, não suportaram o sistema e optaram pela separação?

Sendo assim, é necessário que modifiquemos esta realidade. Que, desde cedo, ensinemos os nossos filhos a valorizarem as camas que dormem, arrumando-as ao acordar; a terem o compromisso de lavarem as louças e saberem o valor de encontrarem-nas limpas; de crescerem conscientes de que o respeito é o primeiro passo para se chegar ao amor e, assim, criar laços afetivos profundos.

Denize Gonçalves, Psicopedagogia; psicanálise clínica