Crusoe x colonialismo

ARTIGO

Crusoe x colonialismo

Caramuru foi um agente do colonialismo do século XVI que nada diferiu do colonialismo "high tech" atual


"Robinson Crusoe", o livro de Daniel Dafoe, é uma narrativa do colonialismo praticado entre os Descobrimentos e os Estados nacionais do capitalismo pré-Revolução Industrial. Crusoe é descrito aventureiro e ambicioso, dominador do ambiente fisico onde atua pela utilização racional dos recursos naturais à sua volta e pela imposição de sua cultura ao autóctone. Metódico e determinado (amoral, inescrupuloso?), Crusoe alcança seus propósitos, primeiro sobre o personagem Xury e, mais tarde, o personagem Sexta-Feira, ambos tidos por seres inferiores e nas bordas da Civilização. Em tudo, a explicitação e a aplicação do modelo capitalista colonialista do Mercantilismo na sua relação metrópole/colônia, alcançando os dois lados do Atlântico, o Pacífico, o Mediterrâneo e o Índico. Um colonialismo de exploração extrativista insaciável, sustentado em sua base moral por uma religiosidade a validar a vantagem de um lado(o colonizador) sobre o outro(o colonizado). Domínio e sujeição, do ludibrio da oferta de um espelho ao lanho do chicote. Exemplos, o regime escravo no Brasil, o horror belga no Congo, ou a colherada no estanho sugado da Bolívia. No livro, Robinson Crusoe aporta ao Brasil e aqui, entre 1652 a 1654, enriquece com o tráfico de seres humanos a ponto de intentar a expedição de grande porte que o leva ao naufrágio e ao isolamento na ilha frequentada pelo nativo Sexta-Feira e adeptos da antropofagia. Lá, Crusoe vive por muito tempo antes do retorno à Inglaterra.

Em uma esticada da imaginação e para comparar, um Crusoe real esteve por aqui. Terá sido Fernão ou Fernando de Noronha, cujo nome batiza a ilha onde nunca esteve e que lhe foi concedida pela realeza lusa. Fernão ou Fernando de Noronha, cristão novo, rico e com trânsito nas bancas europeias, em licenças reais de 1501 a 1511, dedicou-se ao abate predatório de árvores do pau-brasil. À época, nossa Mata Atlântica cobria 15% do território brasileiro de agora, de tal forma que essa primeira agressão foi danosa a um bioma, ainda hoje, de valiosas fauna e flora. Dano maior, sim, a agressão que lhe seguiu com as fornalhas dos 300 engenhos do ciclo da cana de açúcar acesas dia e noite, um modelo de agronegócio, conquanto vinculado aos mercados externos, diferente do atual que, integrado às cadeias globais de produção, se preocupa com os rigorosos preceitos da economia de baixo carbono.

Em uma história da nossa História, nosso Crusoe real muito aceitavelmente terá sido Diogo Alvares Correia, o Caramuru, também náufrago e que, supõe-se, disparou seu mosquete para safar-se dos Tupinambás antropófagos que lhe queriam por repasto. Seu ardil o fez "filho do trovão" ante os gentios que, temerosos, o presentearam com a índia Paraguaçu, filha do cacique da tribo. Entre os índios, casado com uma índia e polígamo com outras, Caramuru foi pai de 13 filhas e filhos, inaugurou a genealogia brasileira e sempre atendeu ao interesse colonial português pelo Brasil. Porém, também esteve próximo a exploradores franceses, tanto que Paraguaçu chegou a receber batismo cristão na França. Assim, em pessoa e nas muitas práticas, notadamente a do exercício da cultura dominante, Caramuru foi um agente do colonialismo do século XVI que, no seu objetivo final de dominação, nada diferiu do colonialismo "high tech" atual, igualmente dominador, faminto por vantagens, avesso ao multilateralismo, predador mesmo.

Helio Silva, Advogado; Rio Preto