O perigo das redes

ARTIGO

O perigo das redes

É preciso pensar um pouco sobre a dinâmica das redes e seus efeitos sobre nossas vidas


"Estamos treinando e condicionando uma geração inteira de pessoas que, quando se sentem desconfortáveis, solitárias ou com medo, usam 'chupetas digitais' para se acalmar e isso vai atrofiando nossa habilidade de lidar com as coisas, vai estimulando nossa incapacidade de lidar com aquilo que não nos agrada." A constatação é de Tristan Harris, ex-funcionário do Google e um dos maiores nomes da chamada Tecnologia Persuasiva. Ele é um dos gênios da informática que aparecem em "O Dilema das Redes", documentário da Netflix que vem tirando o sono de muita gente. A verdade, ou pelo menos um pouco da verdade possível sobre o emaranhado jogo por trás das redes sociais, é detalhada no filme que reúne ex-funcionários e executivos de empresas como Google, Facebook e Twitter para falar sobre os perigos causados pelas redes sociais. Para muito além dos dilemas emocionais, o filme explora questões políticas e analisa divisões sociais estimuladas pelas redes. Fica fácil entender, pela narrativa dos envolvidos, que somos um "produto" para as suas experiências e objetivos.

Ao contrário do que imaginamos, as redes sociais não são ferramentas a nosso serviço. Na verdade, são mecanismos de neolinguística e psicologia avançada meticulosamente desenvolvidos para nos cativar, viciar e nos levar exatamente para onde os gênios da informática de persuasão (e dos poderes econômicos e políticos) desejam. Cada vez mais as redes sociais têm sido manipuladas para prever o comportamento humano e alavancar transformações - de preferência aquelas que dão mais lucro. Outro aspecto do documento é que o acaso não acontece nas plataformas que regem as chamadas Big Techs. Para criar gerações com a cara grudada na tela do celular, mais e mais técnicas sofisticadas e estratégias impensáveis e perigosas são desenvolvidas por especialistas em humanização dos algoritmos que movem as informações que consumimos nas redes sociais. Portanto, é preciso pensar e tentar raciocinar um pouco sobre a dinâmica das redes e seus efeitos sobre nossas vidas. E, talvez, pensar sobre como sua ação afeta a nossa autoestima. Para o mesmo Tristan Harris, "não evoluímos para receber uma dose de aprovação social a cada cinco minutos. Não fomos feitos para esse tipo de experiência". Concordo com ele. E ninguém, em sã consciência, deveria concordar. Portanto, assistir ao documentário da Netflix é programa obrigatório para minha geração e para geração dos meus filhos, que tem a responsabilidade de zelar da educação e do futuro dos nossos netos. Para quem compromisso com o futuro da humanidade. Fica muito claro que o dilema das redes é muito maior do que jamais ousamos imaginar, pois seus próprios idealizadores ficam temerosos em admitir seus verdadeiros riscos. Riscos, aliás, até mesmo para a própria democracia.

Roberto Lima Filho, Doutor em Ortodontia pela UFRJ