Cidade para mulheres

ARTIGO

Cidade para mulheres

Uma série de fatores pode influenciar a forma como as mulheres ocupam as cidades


Por quem e para quem as cidades estão sendo planejadas? Elas são acessíveis para todos, ou só para alguns? Elas abrangem todas as maneiras de viver, ou só algumas? Essas perguntas apontam para o fato de que, uma série de desigualdades e danos a certos grupos da população podem ser acentuados pela forma como a cidade é projetada e os impactos disso podem ser percebidos na maneira como cada um desses grupos vivencia o espaço urbano.

Partindo da ideia de que são várias as possibilidades de vivenciar a cidade, este texto chama a atenção para experiências das mulheres e dos elementos que marcam a presença delas no espaço urbano. Mas porque falar de mulheres? Em primeiro lugar, porque elas ganham menos que os homens. Em segundo lugar, porque, além de terem seus empregos, elas ainda são as principais responsáveis pelo trabalho reprodutivo (cuidado da casa, filhos e família). Em terceiro lugar, porque elas são o grupo mais vulnerável a sofrer violências sexuais.

Mas o que essas questões tem a ver com a presença das mulheres na cidade? Elas têm a ver pois se tornam obstáculos cotidianos que dificultam o acesso das mulheres aos espaços e serviços urbanos e assim, consequentemente, ao direito à cidade e cidadania delas. Por exemplo, o menor acesso à renda faz com que elas dependam mais de serviços e transporte públicos, e andem mais a pé. Já a responsabilidade por tarefas reprodutivas provoca sobre seus corpos um excesso de funções, pouco tempo livre e de lazer e um maior número de deslocamentos diários. Por fim, o medo da violência sexual gera a sensação de insegurança que restringe o acesso delas aos espaços urbanos.

Uma série de fatores pode influenciar a forma como as mulheres ocupam as cidades e, vale ressaltar, que esses fatores impactam de maneira desigual a população feminina e masculina. Além disso, esses impactos podem ser ainda maiores entre cada um desses grupos quando levantadas questões como raça, renda, idade, orientação sexual, entre outros. Portanto, é equivocado pensar e planejar uma cidade considerando que todos nela tenham as mesmas experiências.

Da mesma forma que as cidades podem aprofundar desigualdades, elas também podem ajudar no enfrentamento e redução das diferenças sociais e discriminações. Para isso, é necessário desconstruir a ideia de indivíduo universal no planejamento urbano - que, geralmente, se apoia somente nos padrões masculinos - colocar as diferenças e a vida cotidiana no centro das discussões e dar visibilidade às percepções e necessidades das mulheres principalmente em relação ao trabalho reprodutivo e do cuidado. Além disso, é indispensável fortalecer e incentivar a participação e representatividade feminina nos espaços de decisão, e também daqueles grupos que de alguma forma tiveram sua presença nesses locais prejudicada.

Mulheres percebem mais problemas e vantagens da cidade uma vez que elas são maioria nos serviços e meios de transportes públicos, andando a pé, e ainda são mais atentas as características dos locais por onde passam. Por conta disso, pensar uma cidade melhor para elas, além de contribuir para a autonomia e independência delas, pode resultar na melhoria do espaço urbano para toda a população.

Marina Pereira, Arquiteta e urbanista, Mestranda em Planejamento Urbano e Regional na FAU-USP, Pesquisadora da mobilidade urbana das mulheres com enfoque na segurança de estudantes universitárias, Consultora em mobilidade urbana e Professora assistente na Escola da Cidade. Articulista convidada do Instituto Tri para o projeto "A Cidade que Queremos"