Nossas vidas no amanhã

ARTIGO

Nossas vidas no amanhã

O sistema educacional, a partir do ensino de base, haverá de focar as políticas de prevenção


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Um exercício de paciência. Missão de persistência. Uma vida de mais renúncias. Essas três frases servem para circunscrever nossas vidas no amanhã. O biólogo e pesquisador Átila Iamarino dá a dica: "não tem volta mágica para 2019 sem vírus. É uma adaptação pragmática para 2021 com ele." Portanto, devemos já começar a gigantesca tarefa de fazer as mudanças que se fizerem necessárias para convivermos com os dias futuros. Urge termos consciência dessa necessidade. Não se espere pela volta pura e simples aos dias de ontem, com a manutenção de velhas regras, padrões de comportamento, atitudes e gostos. A reforma na área dos costumes é uma das mais árduas. Afinal, costume faz parte da tradição, carrega o dna de todo um processo civilizatório.

Mas há de se compreender que a vida segue seu curso e avança na esteira das descobertas e inovações resultantes das pesquisas nas áreas da biologia, biomedicina, inteligência artificial etc. Portanto, qualquer arranjo no sentido de salvaguardar a integridade da vida é e será bem-vinda, principalmente se olharmos um pano de fundo cheio de ameaças. Analisando as reações do comportamento, Pavlov se vale do exemplo da ameba para explicar os reflexos do ser humano. A ameba foge do perigo, absorve alimentos, multiplica-se, forma quistos dentro dos quais se multiplica em um enxame de pequenas amebas.

Por aí, podemos ter a primeira resposta para a questão da metáfora de guerra, tão do gosto dos indivíduos. As pessoas, como as amebas, procuram evitar o perigo e preservar sua espécie. Se um vírus, uma Covid qualquer, aparece de repente ameaçando o fluxo vital, o ser vivo tenta dele se afastar, matando-o ou tomando as precauções para que ele desapareça. A natureza procura conservar a vida, de acordo com dois grandes princípios: o do soma e o do gérmen. O primeiro, o indivíduo, conduz o segundo, a espécie; o primeiro é mortal, descontínuo, e o segundo é imortal, contínuo. Para preservar o indivíduo do aniquilamento, antes que tenha cumprido a tarefa de transmitir o gérmen da espécie, a natureza o dotou de dois mecanismos especiais; e da mesma forma, para a preservação da espécie, proporcionou dois mecanismos. Os primeiros são os impulsos combativo e nutritivo; os segundos, sexual e paternal.

Eis a base do argumento que sustenta a tese de que haveremos de adotar o pragmatismo para prolongar nossa preservação. A adaptação à realidade dos ciclos de vida é condição sine qua non. Dito isto, emergem as questões: que mudanças, que novos costumes adotar, quais as esferas que deverão ser mais impactadas, a individual ou a coletiva? Com perdão dos amigos da área biomédica, arrisco a inferir que o rol de adaptações assumirá uma proporção circular, sistêmica, abrangente, na medida em que os elos da cadeia da saúde de um povo abrigam mudanças nos padrões e normas governamentais, atitudes pessoais e comportamentos coletivos.

É claro que uma eficaz revolução de costumes depende da chave da porta do futuro: a educação. Por isso, o sistema educacional, a partir do ensino de base, haverá de focar as políticas de prevenção e mudança de hábitos, o que implicará modelagem inovadora nas áreas dos divertimentos, conservação ambiental, educação, mobilidade urbana, segurança pública, manifestações coletivas, como eventos de massa. Só assim a Humanidade será capaz de implantar um regramento que garanta a sobrevivência da espécie, com destaque para a vida saudável do planeta, o que exigirá forte intervenção nas políticas preservacionistas e de melhor distribuição de renda.

Gaudêncio Torquato, Jornalista, é professor titular da USP