Tecnologia no tecido social

ARTIGO

Tecnologia no tecido social

Uma das coisas mais irritantes quando tratamos com o setor público é a arrogância, insensatez


Uma senhora do Rio de Janeiro veio a Rio Preto pela primeira vez. Na volta para o "seu Rio", lhe perguntaram se havia gostado da cidade. "Não gostei muito", foi a resposta, "é muito longe da floresta". As lentes interpostas à nossa frente, a bagagem e os pontos de vista determinam o que vemos, como vemos e o que deixamos de enxergar. Diante da invasão de uma área urbana, me vi incapaz de utilizar as tecnologias difundidas entre aquelas pessoas para construção de moradias, criação de circuitos elétricos, construção precária de redes sanitárias, cisternas e sistemas de abastecimento de água. Esta riqueza tecnológica, não aflora e não a vemos senão por um olhar atento. Costumamos ver aquelas "mais nobres". Blockchain, Big Data, robótica, inteligência artificial, realidade aumentada, sensores ultrassônicos, e tantas outras. Mas todas se mesclam no amálgama da cidade permitindo seu funcionamento. As tecnologias combinadas vão ao encontro dos empregos, melhores condições de saúde, educação de qualidade, segurança e iniciativas culturais. Nas últimas décadas, intensificamos o uso de Internet das coisas, computação em nuvem, Gig e algoritmos para incentivar as pessoas a conservarem água e energia, viverem de modo saudável e participarem ativamente nas questões locais e de interesse coletivo. Também para controle de enchentes, trânsito, atrações turísticas, diagnósticos médicos, gestão ambiental e sanitária, conjugação do adensamento e espraiamento urbanos e indução da implantação de espaços públicos, integrados à oferta de serviços, comércio, gastronomia, lazer e equipamentos comunitários.

No quesito mobilidade urbana, ser avisado de um congestionamento quando estiver dentro dele não me parece uma boa prática de prestação de serviços. Sistemas preditivos melhoram nossa vida pela captura de dados e difusão de informações de tráfego, aumentando ou diminuindo a oferta de transportes coletivos, ajustando o sistema à demanda e combinando modais.

"Gamefication" vem se prestando à mobilização e implantação de elementos de jogos incluindo o gerenciamento de problemas sociais. Contando com elementos de recompensas virtuais é possível estabelecer robustas conexões na sociedade, ampliando o alcance e abrangência das transformações.

Tecnologia das redes facilita o engajamento das pessoas nas atividades comunitárias, cria e propõe novos processos e hábitos. As ferramentas de colaboração viabilizam a participação de inovadores e melhoram a qualidade da gestão pública. Pois uma das coisas mais irritantes quando tratamos com o setor público é a arrogância, insensatez e irracionalidade da burocracia. Pessoas empoderadas obrigam os gestores públicos, com a experiência coletiva, as mazelas orçamentárias, as restrições legislativas e as limitações técnicas, à incorporação de novas competências gerenciais. Encaremos a tecnologia como instrumento para benefício da organização da sociedade e da economia, inaugurando uma nova fase da gestão do que é público. Permitindo desacelerar o curso da escavação da fratura da desigualdade e elevar o padrão de vida das pessoas num campo que congregue diversas modalidades de colaboração e intercâmbio compartilhando conhecimento e trabalho. Assim, a nossa amiga do Rio de Janeiro terá uma visão diferente e mais positiva na sua próxima visita.

Osvaldo Nascimento, Engenheiro eletrônico