O eleitor encarnado

ARTIGO

O eleitor encarnado

Um estudo aponta que as fake news se espalham seis vezes mais rápido do que as notícias verdadeiras


Quid est veritas? (o que é a verdade?) perguntou Pilatos antes de acolher a deliberação democrática (o plebiscito) do povo judeu que escolheu Jesus a Barrabás para ser crucificado. Os grandes temas da Política sempre guardaram estreita ligação com os temas religiosos, pois em muitos aspectos tratam de questões ideológicas, por conseguinte, de fé. A diferenciação entre verdades e mentiras é hoje o mais crucial problema da Política nas democracias, cada dia mais frágeis, pois nas autocracias, nas ditaduras em ascensão, as mentiras são condição para sua sobrevivência. As democracias sempre conviveram em relação conflituosa com as verdades, as meias-verdades e as mentiras. Mas é condição necessária para sua existência ter a opção, por diferentes meios, de conseguir diferenciá-las. O processo eleitoral, como o conhecemos e periodicamente experimentamos, dá aos cidadãos condições para saber o que é verdade e o que é mentira (fake) nas plataformas dos partidos políticos e nos discursos dos candidatos? Como distinguir as verdades das mentiras disparadas em profusão por robôs nas mídias sociais, quando todos estão conectados, e não somente nos horários eleitorais e nas propagandas institucionais, o que pode influenciar, conduzir e moldar as percepções dos eleitores? Quanto de verdades é possível obter no curso das campanhas políticas quando os eleitores são prisioneiros das cavernas, conforme a alegoria de Platão, ou estejam dentro de uma "matrix" onde a hiper-realidade e a espetacularização dominam as vontades e os comportamentos? É simplesmente inútil ficar repetindo que os eleitores precisam aprender a escolher os seus representantes, quando as mídias sociais são manipuladas de diferentes maneiras por diferentes interesses em jogo e ninguém delas mais escapa? Algumas dessas questões estão colocadas de modo perturbador no documentário "O dilema das redes" exibido na Netflix.

Um estudo aponta que as fake news se espalham seis vezes mais rápido do que as notícias verdadeiras. Isso provoca um desequilíbrio no comportamento humano, mudando o que bilhões de pessoas pensam. As plataformas digitais fazem isso porque informações falsas dão mais lucros do que as verdadeiras. São um modelo de negócio que lucra com a desinformação. Os políticos usam como modelo para sua eleição.

Os algoritmos estão ficando tão bons que são capazes de nos convencer de que as fake news são verdades e por isso os eleitores estão deixando de ser a expressão da vontade geral ou da maioria, respeitada a minoria, como se diz no processo eleitoral democrático, para converter-se num algoritmo encarnado, ficcionado, que supostamente faz escolhas livres e espontâneas. As ferramentas das plataformas digitais estão sendo usadas com propósitos terríveis. Estão provocando divisões irreversíveis na sociedade pelos mais diversos motivos. O maior exemplo é o "nós contra eles" alimentados pelos populistas de esquerda e de direita, onde um lado não quer dialogar com o outro, e que pode desaguar numa ameaça existencial à convivência política ou até numa guerra civil. A democracia trava uma luta desesperada por sua sobrevivência. Não a deixe morrer! Não espalhe fake news!

José Manoel de Aguiar Barros, Advogado e professor