Antividas...

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Hesitação em se vacinar vem embasada em argumentos sem fundamentação científica


Os movimentos antivacinas, hoje impulsionados pelas redes sociais e pelo prazer que alguns indivíduos sentem ao espalhar fake news, têm provocado preocupante desaceleração das coberturas vacinais pelo mundo e, por consequência, o combate a várias doenças atuais, além de permitir o reaparecimento de enfermidades altamente contagiosas já erradicadas, tornando-se grave ameaça à saúde da população. E, por uma razão mais do que evidente, à medida em que seus adeptos não se imunizam nem imunizam seus filhos, colocam em risco a vida de quem não pode ser imunizado, a exemplo das pessoas excluídas do calendário de vacinação e das que sofrem de algum comprometimento imunológico.

Essa "hesitação em se vacinar" (termo empregado pela OMS) vem embasada, principalmente, em dois argumentos, ambos "sem fundamentação científica que os justifique", segundo especialistas. Um deles, a alegação de que as vacinas não são seguras nem eficazes; o outro, não menos recorrente, a de que a imunização das crianças sobrecarrega seu sistema imunológico diante do número de vacinas preconizadas para a primeira infância. Sem falar nos argumentos esdrúxulos urdidos em teorias da conspiração, como no caso das vacinas destinadas a combater o novo coronavírus, que "injetariam um nanochip na corrente sanguínea das pessoas, destinado a monitorar sua localização por meio da tecnologia de conexão móvel 5G"...

Diante desse cenário, não há como deixar de comentar o recente episódio que levou a empresa AstraZeneca a suspender, temporariamente, sua última etapa de testes com a aguardada vacina de combate à Covid-19, que vem sendo desenvolvida em parceria com a Un. de Oxford. A paralisação visa a permitir que um comitê independente possa analisar os dados de segurança da vacina, após uma suspeita de reação adversa séria em um voluntário no Reino Unido, cujos sintomas "poderiam ou não estar relacionados com a imunização". (Até o momento da paralisação, cerca de 18 mil participantes já tinham se submetido aos testes.)

Pesquisadores e agências regulatórias de todo o mundo garantem que essa prática é comum nessa fase quando surge uma doença potencialmente inexplicada, e não representaria necessariamente um retrocesso na condução do processo. Ademais, a medida vem confirmar a seriedade com que as instituições envolvidas (incluída a Fundação Oswaldo Cruz, responsável pela produção da vacina no Brasil) encaram os estudos clínicos na produção de imunizantes, atentas aos padrões internacionais de segurança preconizados pela ciência. No entanto os idólatras das fake news aproveitaram o episódio para reforçar a teoria medíocre de que as vacinas fazem mal.

Por fim, segue trecho de uma entrevista concedida à Veja (13/09/2019) pelo historiador e consagrado autor Yuval Noah Harari, em que afirma que a ciência, atualmente, encontra-se sob ataque por vários motivos - o menosprezo às suas conquistas seria um deles. ("Um terço da população teria morrido na infância de desnutrição ou de outras doenças hoje banais, não fossem as descobertas dos antibióticos, vacinas e vitaminas sintéticas.) Outro motivo viria "da disposição dos líderes populistas, inimigos contumazes da ciência, em destruir os contrapesos que limitam suas vontades, daí atacarem a imprensa, as instituições e as universidades, que, ao exporem verdades, vão contra seus interesses"...

Eurípides A. Silva, Mestre e doutor em Matemática pela USP, ex-diretor do Ibilce, campus da Unesp de Rio Preto

Ademar Pereira dos Reis Filho, Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro; diretor da Fatec de Rio Preto