Atitude para mudar

ARTIGO

Atitude para mudar

Nos intramuros, há muito o que sanear; faz-se necessária uma guinada e mudança plena de atitude


Dois anos no comando do País, o atual Governo ainda tem pela frente o desafio das reformas. Os obstáculos tem sido muitos, desde uma resistência cultural que germina intramuros até ao desastre que não se previa, a Covid-19. Nosso Serviço Público tem ineficiências que não se restringem apenas ao Executivo. Muitas dessas reformas exigem trânsito à luz da Constituição, mas outras dependem de cada Poder de per si. O Governo presente buscou o refazimento da estrutura operacional do Executivo Federal, com vistas a restringir seu custo e dela obter qualidade funcional. Parece, está aí, o fulcro da questão. Não basta congelar salários e rever organogramas e benesses. É o tamanho ótimo do Estado prestador de serviços que conta quando se valora a matriz insumo/produto de sua atuação. Por isso, a intervenção inaugural ficou restrita a medidas emergenciais e tópicas, até porque se obrigariam juntadas a outras mais quanto a estruturas e respectivos sistemas no Executivo, Legislativo, Judiciário e, porque não, no Ministério Público, e nos três níveis de Governo (Federal, Estadual e Municipal) para alcançarem eficácia no atendimento ao cidadão que, apesar de vergado por pesada carga tributária, recebe contrapartidas insatisfatórias.

Não nos apressemos para reprovar a qualidade dos quadros do nosso serviço público, hoje em grande parte constituído de pessoal submetido a rigorosos concursos de ingresso. Entretanto, vícios estruturais, sistêmicos e deficiências materiais e de cultura se infiltram em seu funcionamento, a ponto de representá-lo perante a sociedade como a causa visceral do desperdício, da corrupção e do ônus financeiro que sufoca os orçamentos e rouba ao governante, da União ao Município, a possibilidade de um mandato bem reconhecido. Tal diagnóstico tem imprecisões. Nos intramuros, há muito o que sanear, em relevância o ar dividido entre o público e o privado no nível decisorial. Na meia jornada de uma gestão em que novos dirigentes aportaram ao Serviço Público em abrangência quase nacional, surge a possibilidade de uma mudança nos métodos de gestão valorizados na administração privada, mas que, no serviço público passam ao largo, quando não, nem mesmo lembrados porque acenados em fugaz promessa de palanque. É hora de melhorias nesse quesito, colocando-o sob o foco do planejamento que mede recursos e estabelece metas e do gerenciamento que controla a ação, busca o resultado e eleva o cidadão à condição de cliente preferencial.

Fácil? Basta ler e aplicar os compêndios disponíveis sobre a Ciência da Administração? Não. Mais que as lições de um manual, do regramento formal e das licenças constitucionais, faz-se necessária uma guinada no sentido de mudança plena na atitude e na cultura. É preciso crença para gerar competência. Uma grande tarefa dos dirigentes no poder público parece ser a conquista dos corações e das mentes em torno da épica jornada necessária a um Brasil mais que moderno, modelar. No que nos diz respeito, nós, os brasileiros de um modo geral, parece necessário um inconsciente coletivo disposto ao sacrifício precedente ao desfrute, uma certa ordem em direção ao esforço solidário e um certo sentimento de que a liberdade individual somente se assegura mediante regras que valorizam o viver social, por isso, marcos de civilização. No mais, uma dose extra do nosso entendimento sobre nossas potencialidades e oportunidades pode surpreender.

Helio Silva, Advogado; Rio Preto