Hora de retomar as viagens

Sérgio Cimerman

Hora de retomar as viagens

Estamos cansados de turismo virtual: jantar no restaurante de boa pontuação apenas visualizando o cardápio e observando fotos, visitar museus com câmeras fantásticas em pontos muito bem posicionados pela instituição, porém sem a sensação de desfrutar tudo que aquela obra de arte quer realmente dizer


Sérgio Cimerman, infectologista
Sérgio Cimerman, infectologista - Divulgação

A covid-19 está nos trazendo ensinamentos nesses seis meses Não poderia ser diferente no ramo do turismo, sensivelmente afetado, com rombo de US$ 84,4 bilhões que afeta companhias e agências, conforme a International Air Transport Association (Iata). Desde o início, várias lições foram aprendidas, e o começo do retorno regado a protocolos rígidos de distanciamento social, higienização de mãos e uso de máscaras durante o voo será o diferencial.

Estamos cansados de turismo virtual: jantar no restaurante de boa pontuação apenas visualizando o cardápio e observando fotos, visitar museus com câmeras fantásticas em pontos muito bem posicionados pela instituição, porém sem a sensação de desfrutar tudo que aquela obra de arte quer realmente dizer. Estamos na hora desta volta? Creio que sim, se mantidas as regras já convencionais e observada atentamente a normativa de entrada de cada nação.

A maioria das companhias aéreas internacionais realiza um trabalho interno e com os passageiros de boa aceitação. Adotam normas de entrada nos aviões, limpeza frequente das superfícies e uso de máscaras durante todo o voo, apesar do desconforto que possa levar a todos nós. Por causa da situação e da posição do Brasil no cenário de casos de infecção, até o momento a entrada de turistas não tem sido aceita, com raríssimas exceções, como por exemplo Dubai e México.

Mesmo assim, se deve realizar o exame do RT-PCR com 72 horas de antecedência, para que seja mostrado na imigração. Creio que, quando tivermos uma abertura maior de localidades, essa determinação deva ainda ser mantida por um bom tempo pelas autoridades sanitárias dos países. Uma grande vantagem será a mensuração pelo exame de antígeno para covid-19 que seria feita na chegada, com o mesmo tipo de coleta pelo swab nasal e de orofaringe, com resultado em até 30 minutos. Para isso, deverá haver uma estrutura de coleta em cada localidade e serem seguidos procedimentos de biossegurança. Ainda contaremos com o padrão ouro do RT-PCR levado pelos passageiros.

Durante o voo, tenho risco? Pergunta difícil de responder. Uma questão é fato: os aviões apresentam os filtros Hepa (High Efficiency Particulate Air), que são utilizados em ambientes hospitalares e apresentam uma alta capacidade de filtração com renovação do ar, em média, a cada três minutos, retendo acima de 99% dos vírus e bactérias que estejam no ar. Com essa tecnologia, ficamos mais tranquilos em relação à segurança. Se aliado a isso seguirmos as medidas preventivas já adotadas mundialmente, ficaremos com baixo de risco de infecção e, assim, daremos início ao retorno do turismo internacional. Se ainda pudéssemos dispor do intercalamento entre poltronas no avião, será o melhor dos mundos. Como economicamente ficará inviável, sugiro que durante o percurso seja retirada a máscara o mínimo possível e se evitem conversas.

Aos poucos vamos retornando o turismo interno em cada país. Estamos já observando hotéis cheios, porém com capacidade reduzida pelas leis atuais. E seguem protocolos adequados para preservar a todos.

E as viagens de navio? Aqui, mais um tempo para o retorno. Difícil manter milhares de pessoas a bordo, além da tripulação. Cria-se a aglomeração, que é um alto risco de infecção. Há a questão alimentar em sistemas de bufê enormes. Mesmo com todos os protocolos seguidos à risca, o risco me parece alto.

Mas haverá volta também. Estamos caminhando a passos largos, com risco de transmissão inferior a 1 (menos de uma pessoa transmitindo para outra pessoa) em boa parte das cidades brasileiras e a vacina trará maior tranquilidade. Vamos viajar, oxigenar a mente e rodar boa parte da economia mundial.

Sérgio Cimerman, coordenador científico da sociedade brasileira de infectologia