A vida feliz

ARTIGO

A vida feliz

O estoicismo atingiu seu auge em Roma, com a obra de Sêneca e do imperador Marco Aurélio


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Dentre os diversos ramos da filosofia que floresceram no mundo grego, um deles tem características que fizeram com que o seu interesse perdurasse até nossos dias: o estoicismo. Essa curiosa vertente da filosofia antiga tem como objeto a arte de bem viver, além das questões éticas e morais da condição humana. Os filósofos estoicos pregavam que, para se viver uma vida boa, é preciso aceitar o mundo tal como ele é, e expulsar do nosso espírito do medo, a inveja, a alegria pelos males dos outros, a avareza, a preguiça e a incontinência.

Interessante observar que o filósofo grego Epicteto, embora tenha passado a vida como escravo, sentia-se um homem plenamente livre. Repetia que, ainda que fosse escravo, podia dar asas a seus pensamentos. Para ele, ser livre era libertar-se de si mesmo. Epicteto aconselhava as pessoas a adotar uma atitude de não apego aos bens materiais, preparando-se para o fato de que nada é para sempre neste mundo, pois tudo é passageiro. Para o estoicismo, a verdadeira liberdade não significa apenas se livrar das correntes da sociedade, mas se libertar das correntes impostas por nós mesmos. Para sermos livres, não podemos nos apegar às coisas que estão além do nosso controle. Caso contrário, seremos sempre escravos dos nossos desejos, principalmente se dependermos de coisas que os outros controlam: quem quiser ser livre não deve querer nada que seja controlado pelos outros. Originário da Grécia, o estoicismo atingiu seu auge em Roma, com a obra de Sêneca e do imperador Marco Aurélio. Sêneca dizia que era preciso aprender a viver como se o instante mais importante da vida fosse aquele que estamos vivendo, e que as pessoas mais importantes são aquelas que estão diante de nós, pois o passado não está mais aqui e o futuro ainda não chegou. Sêneca foi tutor do imperador Nero, passando quase toda a vida a seu lado, até que, implicado numa conspiração justamente contra Nero, foi obrigado a cometer o suicídio. Para os estoicos, enquanto o animal é dominado pelo instinto, o homem é guiado pela razão, e o mundo que a razão lhe apresenta é a natureza. Daí um dos lemas dos estoicos ser: "é preciso viver segundo a natureza". Para Cícero, a natureza constitui o mais belo dos governos. Por cinco séculos, o estoicismo reinou absoluto, mas sucumbiu ao advento do Cristianismo, que, com sua doutrina da salvação, proclamou a vitória sobre a filosofia grega.

A propósito, Shakespeare, longe de ser um filósofo estoico, nos legou um belo soneto sobre a transitoriedade da vida: "Quando quarenta invernos assediarem tua face/ E cavado sulcos profundos onde agora és bela/ Essa tua juventude tão orgulhosa, que a todos deixa maravilhados/ Será somente um resto pisoteado, a que ninguém mais se voltará para ver". Naquele tempo, as pessoas eram consideradas velhas aos 40 anos (os tais 40 invernos). O poema é um chamado para que a pessoa tenha consciência de que tudo é passageiro, inclusive nós mesmos.

João Francisco Neto, Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP)