Máscaras que salvam

ARTIGO

Máscaras que salvam

O período medieval acabou há séculos. As doenças e a ignorância, infelizmente, não


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Sarah Durn é uma escritora norte-americana que possui especial interesse pelos temas relacionados ao Período Medieval. Recentemente, ela publicou um artigo, no mínimo, instigante: "Uma breve história das máscaras faciais médicas". Nele, a escritora relata as circunstâncias e a trajetória que fizeram com que as máscaras passassem a ser utilizadas por médicos.

Ela inicia mencionando a Praga de 1656 que, somente em Nápoles, ceifou cerca de 300 mil vidas. Os médicos daquele período, quando visitavam os doentes que apresentavam sintomas da Praga (bubões e febre alta), utilizavam sobretudo e luvas de couro, além de calças, botas e um chapéu de abas largas. Por fim, uma máscara de bico longo completava o traje. O bico, embora pouco eficaz, foi desenvolvido pelo médico francês Charles de Lorme, configurando-se como um dos primeiros "equipamentos" faciais projetados para reduzir a propagação de doenças.

Dentro do bico eram colocadas ervas aromáticas como hortelã, mirra, pétalas de rosa, cravo, cânfora, entre outras, pois, acreditava-se que odores desagradáveis ou "ar ruim", como aqueles presentes em corpos ou alimentos apodrecidos, causavam doenças. No século 17, com o desaparecimento das pragas, o uso das máscaras deixou de ser uma prática entre os médicos. No entanto, outros profissionais reconheciam que a inalação de certas partículas poderia trazer riscos à saúde. Isto motivou Alexander von Humboldt a inventar, em 1799, um respirador utilizado pelos mineiros que trabalhavam na Prússia.

Só no final do século 19, mais precisamente em 1897, é que o cirurgião francês Paul Berger se tornou um dos primeiros médicos a adotar a máscara facial durante uma cirurgia. Como Berger conhecia os estudos do bacteriologista alemão Carl Flügge, tinha consciência de que a própria saliva poderia conter bactérias que provocariam doenças em seus pacientes. Em 1899, ao ler o artigo "Sobre o uso de uma máscara na operação", perante a Sociedade Cirúrgica de Paris, Berger ouviu de um colega médico: "eu nunca usei uma máscara e, certamente, nunca usarei". Só em 1918, com a epidemia de Gripe Espanhola é que o uso de máscaras faciais passou a ser obrigatório para policiais, médicos e moradores em algumas cidades dos EUA e adotada de forma espontânea em outras partes do mundo. Durante a epidemia, morreram muitos médicos que se recusaram a utilizar máscaras. Finalmente, as máscaras descartáveis modernas se tornaram populares na década de 1960 e, em 1972, o modelo N95 foi inventado, tornando-se um acessório padrão para assistência médica em epidemias, a partir de 1995. Passados 364 anos, desde a Praga (1656), e outros 102 anos, desde a Gripe Espanhola (1918), se por um lado os profissionais da área de saúde e as pessoas com um pouco de bom senso reconhecem a importância dos equipamentos de proteção individual como poderosos instrumentos que dificultam a transmissão de doenças, há, ainda, aqueles que continuam zombando dos que adotam pequenos e importantes cuidados, como o uso de máscaras. Para os que zombam, vale lembrar dois fatos. Primeiro: até agosto deste ano, mais de 4 milhões de brasileiros foram contaminados e 125 mil deles perderam a batalha para o Covid-19. Por fim, o segundo lembrete: o período medieval acabou há séculos. As doenças e a ignorância, infelizmente, não.

Ademar Pereira dos Reis Filho, Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro; diretor da Fatec de Rio Preto