Leituras na pandemia

ARTIGO

Leituras na pandemia

Diz o neurocirurgião Fernando Gomes: 'A literatura estimula o cérebro de forma global'


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"O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler." (Mark Twain)

Dizem os especialistas que, neste cenário pandêmico, uma forma de cuidar da saúde mental pode se dar por meio do cultivo da leitura de boas obras literárias. Não por acaso, há quem reivindique às autoridades sanitárias o direito de as livrarias operarem mesmo nos períodos mais restritivos da pandemia, com o argumento de que a leitura, ao abrir nossa mente, nos estimula a mergulhar em mundos diferentes do que nos meteu a crise provocada pelo coronavírus. Daí, considerações como as do prof. Fernando Gomes, neurocirurgião e neurocientista docente da FMUSP, ao explicar cientificamente a "sensação de calma" que um bom livro proporciona. "A literatura estimula o cérebro de forma global. Um exercício capaz de desviar o foco de atenção para outros aspectos além da realidade preocupante com o contexto da pandemia. Sendo um processo de aquisição de dados mais lento que o áudio e o vídeo, a leitura permite um tempo de maturação de pensamentos mais tranquilo e menos ansioso."

Temos que reconhecer, porém, que esse não é um exercício simples. E um de seus principais óbices vem do fato de que os sentimentos de ansiedade e estresse - inevitáveis nas circunstâncias - costumam comprometer habilidades cognitivas envolvidas nos processos de leitura, como a capacidade de concentração. Outro ponto, ainda que episódico, surge das atuais dificuldades de acesso às livrarias (fenômeno que levou a uma grave retração mundial no mercado editorial de livros físicos), mesmo com as vendas pelo sistema de delivery e as ofertas no formato digital. Mas isso não é tudo. O confinamento de um terço do planeta a fim de frear a disseminação do vírus deu origem ao "maior experimento psicológico da história", extremamente preocupante, segundo especialistas em estresse e trauma, podendo levar à chamada "epidemia de esgotamento", com repercussões que vão exigir atento acompanhamento psicológico, mesmo após a vigência da pandemia. Como agravante, ainda surge a constatação de que nossa população tem se mostrado mais suscetível às crises de ansiedade por conta do coronavírus do que a de outros países, fato atribuído ao nosso "panorama pouco favorável nos âmbitos sanitário e da saúde, econômico e político". (Ref.: Instituto Ipsos, entidade internacional, líder global em pesquisa.) De todo modo, como estratégia saudável para fugir à dinâmica perversa e obsessiva que nos empurra para a apatia e o pessimismo destes dias tão pesados, fica a sugestão de leitura de um livrinho extraordinário, o best-seller "Não faça tempestade em copo d'água - e tudo na vida são copos d'água" (Ed. Rocco, 1998). Escrito pelo Ph.D. e psicoterapeuta R. Carlson (EUA, 1961-2006), que em vida foi um respeitado autor e palestrante na área da gestão do estresse, o livro alcançou tiragens em mais de 135 países e 30 idiomas. Nele, são privilegiadas dicas do cotidiano, de fácil entendimento, de como diminuir a ansiedade e o estresse, sem apelar para receitas ou conceitos e jargões de autoajuda.

Eurípides A. Silva, Mestre e doutor em Matemática pela USP e aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp de Rio Preto