Sobre os ossosdos mortos

ARTIGO

Sobre os ossosdos mortos


Olga Tokarczuk (1962)É o nome mais premiado da literatura polonesa contemporânea. Seus livros já receberam as principais distinções de seu país, além de importantes prêmios para tradução na língua inglesa, como o Man Booker Prize. Em 2019, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura
Olga Tokarczuk (1962)É o nome mais premiado da literatura polonesa contemporânea. Seus livros já receberam as principais distinções de seu país, além de importantes prêmios para tradução na língua inglesa, como o Man Booker Prize. Em 2019, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura - Reprodução

“O fato de não termos consciência do que vai acontecer no futuro é um erro terrível na programação do mundo.”

A autora é polonesa vencedora do Prêmio Nobel de Literatura (2018) escreve seu romance Sobre os Ossos dos Mortos em 2009; é publicado no Brasil pela editora Todavia em 2019. A tradução é de Olga Baginska-Shinzato e a capa é belíssima!

A história é tecida com tal maestria que nem sabemos o que mais admirar se a forma ou o enredo: Janina Dusheiko, uma professora aposentada, apaixonada por animais, por astrologia e pelo poeta William Blake. A partir do aparecimento de um vizinho morto, uma série de acontecimentos estranhos vai tecendo o clima de suspense e de mistério.

Tão envolvente é o texto que, a cada página a penumbra vai se intensificando em desejo de clarear os inusitados mistérios desse romance noir*.

Janina, a protagonista, com suas anotações, as obras de Blake, seus remédios, o laptop com estudos de astrologia e as Efemérides carrega suas “enfermidades” como partes indispensáveis de si mesmo e cada uma delas nos causa espantos e revelações surpreendentes.

Sobre “suas enfermidades” ela as cultiva com desvelo: A saúde é um estado incerto e não pressagia nada de bom. É melhor viver tranquilamente doente, assim pelo menos sabemos qual será a causa de nossa morte.(p.158) 

A tese explícita da história: os animais estão se vingando das pessoas nos faz refletir com mais atenção ainda, pois quem hoje não percebe que os animais precisam ser cuidados e defendidos da insanidade de certos e irresponsáveis homens?!

A protagonista é uma ativista em defesa dos animais e uma conhecedora do espírito grego, onde na natureza são encontrados os próprios deuses e suas particularidades.

Quando ela falava sobre seus dois parceiros: Boros e Esquisito mantinham um triálogo, três faunos, uma espécie humana distinta, metade humanos, metade animais. Sim, Esquisito é um personagem (dos principais) assim como Dionísio (o Dísio), Pé Grande, Acinzentada, Capa Negra, epítetos que facilitam a compreensão de cada um deles e indica seus papéis no desenrolar da trama.

Tão encantadoras são as observações da narradora-personagem que na maioria das 252 páginas temos a impressão de estarmos mergulhados na poética de uma humanidade tão dolorida e sublime que parecemos flutuar.

É livro para ser lido várias vezes. Merece e vale cada linha, vejam só um dos olhares da narradora: perdi a noção do tempo e todas as pausas entre as frases(...) pareciam infinitamente longas. Abriu-se uma vasta brecha temporal. Nossas con-versas duravam uma eternidade.(p.155)

Antes deste tempo também ESQUISITO que nós estamos vivendo, no início de 2020, em um delicioso passeio em um café de uma livraria de nossa cidade com uma querida amiga, que como eu ama livros e uma agradável conversa sobre literatura, fui apresentada ao livro que ela tinha encomendado e para minha alegria, outro exemplar chegara também... Ela é minha madrinha deste livro, pois pasmem vocês – inicialmente comecei a leitura e o deixei de lado, ela queria conversar sobre ele e insistiu: “Lucila, não é possível!!! Estou na segunda leitura e quase chorando de emoção”...

Pronto, Lu Villela, li e reli. ‘Me apaixonei pelo texto’ – um grupo já o leu na Casa das Flores e, agora, indico neste espaço tão acolhedor para que mais leitores se beneficiem dele.

Ainda mais essa preciosa informação: todas as epígrafes e citações dos 17 capítulos são colhidas das obras: Provérbios do Inferno, Augúrios da Inocência, O Viajante mental do poeta inglês: William Blake.

*romance noir: tipo de romance policial onde os personagens são mais humanizados: personagens costumam beber, brigar, se envolver em romances ...

 

É professora, escritora e fundadora do espaço de leitura Casa das Flores. Fundado em 2002, o local reúne pessoas interessadas no universo dos livros, em compartilhar textos e histórias e falar sobre diferentes autores. A Casa das Flores está localizada na Raul Silva, 122, no bairro Redentora.

Telefone: (17) 3301-2077.