O museu do Silva

ARTIGO

O museu do Silva

Diz o velho adágio que a primeira impressão é a que fica. Eu diria mais: é a que imortaliza


O museu do Silva. É assim que é mais conhecido o Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva, que ainda há pouco completou 40 anos. Também desejo render minhas homenagens. Conheci Silva através de outro artista primitivista, Edgard de Oliveira, no início dos anos 1970, no antigo terminal da circular na praça Dom José Marcondes. Na conversa, Edgard disse que era discípulo do mestre primitivista e que sempre estava em sua companhia no museu ao lado da Biblioteca Municipal, na rua Saldanha Marinho. Mostrei desejo de conhecê-lo. Marcamos o dia. Por essa época eu morava na roça. Não via a hora de estar na presença de tão ilustre figura. No dia e na hora marcados lá vim eu pedalando minha "bicicreta", com a camisa aberta ao peito, todo suado devido à lonjura e ao sol de rachar mamona. Diz o velho adágio que a primeira impressão é a que fica. Eu diria mais: é a que imortaliza. Nunca esqueci quando diante dele fui tratado com carinho, ao ser apresentado como iniciante no mundo das artes. E, para meu espanto, ele me deu um abraço ao saber que eu morava na roça. Pediu pra ver minhas mãos. Eu, timidamente, as estendi. Ao vê-las calejadas, passou a contar sua história na terra natal, Sales de Oliveira, como lavrador.

Anos depois, entrei pra Polícia Militar. Sempre que podia, passava no museu para uma "palra" com o mestre. Ele passou a me chamar de "sordado Jocelino". Certa vez, me confidenciou que o museu estava prestes a mudar de endereço. Iria para um amplo espaço no prédio que havia acabado de ser construído na praça Cívica, o Centro Cultural Daud Jorge Simão. O museu seria dirigido pelo professor Romildo Sant'Anna. Eu disse-lhe: "Conheço o professor, estará em boas mãos".

Áureo Ferreira Junior, empresário, contou-me uma passagem de como o Silva era conhecido e amado no exterior. Certa vez, foi convidado a participar de um evento na Alemanha, onde estavam representantes do mundo inteiro da marca de veículos que ele vendia. Ficou conhecendo um alemão, perguntou de onde ele era. Disse que era brasileiro, morava no estado de São Paulo, numa cidade chamada São José do Rio Preto. A cidade do José Antônio da Silva? Sim, respondeu Aurinho. O homem disse ter muitas obras do mestre em sua coleção e que seu maior sonho era conhecê-lo. De volta ao Brasil, nosso amigo entrou em contato com Silva e o encontro foi marcado. O alemão ficou encantado com nossa cidade e não via a hora de estar na presença dele. Foram até a vila Maceno, próximo ao Cristo Redentor, onde o artista morava. Tocaram a campainha. Silva veio recebê-los. Quando o visitante viu seu ídolo, se ajoelhou e beijou-lhe as mãos em sinal de respeito e admiração. No início de agosto de 1996, o mestre foi internado no Hospital de Base. Depois do meu plantão, fui visitá-lo, fardado. Ao me ver, pediu: "Me faiz uma continência, sordado"! No dia 9 daquele mês, há 24 anos, morria um dos maiores primitivistas do mundo. Seu corpo foi velado na Câmara Municipal. Parabéns ao Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva pelos 40 anos.

Jocelino Soares, Artista plástico, diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura