Estamos no caminho errado

ARTIGO

Estamos no caminho errado

Improvisam alternativas para fugirem da fase vermelha que colocam a população e profissionais em risco


"Poderia me dizer que caminho devo tomar para sair daqui?

Isso depende bastante de onde você quer chegar, disse o Gato".

(Lewis Carroll)

Lewis Carroll é um dos maiores expoentes da literatura non sense. O autor de Alice no País das Maravilhas inaugura, através de jogos linguísticos, uma não-lógica que nos coloca fora da ideia de que há um só sentido para o que vemos e falamos. O que os pretensos donos da Verdade querem nos impor são suas próprias convicções que se escondem por trás de seus interesses inconfessáveis. O que existe de real é uma luta entre as narrativas deles e outras muitas possíveis descartadas pelas maquinarias do poder.

O prefeito Edinho, nas últimas semanas, tem produzido frases exemplares que nos permite compreender, no dizer do jagunço Riobaldo, a sobrecoisa. Toda fala dirige-se a alguém-outro ou ao outro-alguém que habita em nós mesmos, sendo, portanto, passível de interpretações. No dia 17 de julho, logo após o governador de São Paulo amainar sua falta de coragem, mantendo Rio Preto politiqueiramente na fase laranja, declarou: — "A fase laranja traz alívio para a área econômica".

Nos verbetes do Houaiss, o substantivo alívio tem dois sentidos que não são complementares, mas opostos: 1. Ato de aliviar-se e diminuição de peso 2. Diminuição de enfermidade, de sofrimento. Pelo contexto, quero crer que o alcaide só pensou no primeiro significado da palavra. Quando lava as mãos diante do sofrimento de rio-pretenses, que já perderam e que ainda vão perder entes queridos, se esconde nas costas do governador que brinca de pintar o estado de cores. Por outro lado, alivia para os grandes e penaliza os pequenos empreendedores e trabalhadores. Ao se alvorar o novo Jânio Quadros do sertão, retira dos restaurantes e bares a única alternativa de sobrevivência: o delivery. Sua política do "faz de conta", ao fechar supermercados nos fins de semana, para evitar aglomeração, não só aumenta o tumulto nos outros dias, como permite que outros amontoamentos continuem, tudo por uma causa santa: sua reeleição. Tem sentido isto? Se o burgomestre tivesse vislumbrado a segunda noção da palavra — a de diminuir sofrimentos e enfermidades —, seria capaz de enxergar que, do dia do seu refresco à data que escrevo, 80 rio-pretenses morreram pela COVID19, deixando suas famílias sem consolo. De 13 de março até 01 de junho, Rio Preto tinha 703 casos de coronavírus. A partir daí até hoje, 8.318 pessoas foram infectadas. Antes do dia anterior à abertura mal planejada das atividades comerciais, 23 pessoas tinham morrido, hoje, somos 240 mortos, fruto da obra mau cheirosa da sua gestão.

Na última sexta, ao mostrar-se novamente aliviado, repostou: — "Estamos no caminho certo. Quase fomos para fase vermelha. A manutenção foi possível pelas gestões providenciadas no município, abrindo UTIs, como foi feito na UPA Jaguaré e em Jaci". Desde março venho alertando que teríamos que fazer isolamento sério, testar o maior número de pessoas e ampliar leitos para pacientes graves. No momento oportuno, nada disto foi feito. Agora, improvisam alternativas para fugirem da fase vermelha que colocam a população e profissionais de saúde em risco. Mandam pacientes de Rio Preto para Jaci, enquanto pacientes de lá são internados no HB. É isto um planejamento e gestão eficiente, prefeito? Como cidadão não me sinto nem um pouco aliviado com a forma com que vocês administram a pandemia. Ela é um desastre econômico e sanitário. Dentro do seu sentido, o senhor está no caminho certo: no caminho da morte por meio de uma indisfarçável imunidade de rebanho. Voltemos à Alice: — "Como tudo é esquisito hoje! E ontem tudo era exatamente como de costume. Será que fui eu que mudei à noite? Mas se eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: Quem é que eu sou? Ah, essa é a grande charada"!

Cacau Lopes, médico e professor de saúde pública da FAMERP.