Sem escorrer entre os dedos

ARTIGO

Sem escorrer entre os dedos

Todos somos muito modernos, mas na hora da confiança, a gente quer mesmo é tradição


Gosto de ver ao lado do nome de empresas longevas, aquele selo que mostra o seu tempo de existência. Tipo Diário da Região, 70 anos. Gosto também de quem coloca a preposição "desde" junto à data de fundação do comércio, como por exemplo, Churrascaria Gaúcha, desde 1956. Todos somos muito modernos, mas na hora da confiança, a gente quer mesmo é tradição, experiência e o poder do conhecimento. E a longevidade dos empreendimentos é, talvez, a maior prova de que o serviço praticado ali é de excelência. São exemplos de durabilidade: estar no coração das pessoas há décadas é reconhecimento claro de seriedade, respeitabilidade e profissionalismo. Gosto de saber que ainda existem casamentos de 40, 50 e até 60 anos. Uniões que romperam os anos ainda mais fortes e revitalizadas. Interessante que tanto empresas como relacionamentos duradouros estão na contramão destes nossos tristes tempos, ou da modernidade líquida apresentada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Falecido em 2017 aos 91 anos de idade, Bauman chamou de "modernidade líquida a convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza, a única certeza, que os relacionamentos do presente século escorrem por entre os dedos". Eles explicou que "as pessoas acabam conseguindo apoio numa sensação potencial de eterno recomeço. E essa constante sensação transforma a vida numa experiência urgente e sem profundidade". Por isso, na contramão dessa teoria precisam estar casais, empresas e profissionais que desejam se perpetuar. No meu consultório de Ortodontia, que existe no mesmo endereço há exatos 45 anos em Rio Preto, já atendemos a três gerações de muitas famílias. Pais, filhos e agora netos procuram uma prática baseada na conjugação correta de evidências científicas e a arte em definir belos sorrisos.

Na especialidade que escolhi como missão de vida, o padrão ouro que sempre me guiou foi uma abordagem baseada em evidências atestadas pela Ciência. Sem me absorver por modismos ou modernismos infundados, fugi da liquidez e da frustração dos ciclos irresponsáveis de tentativa e erro. É lógico que novas ideias surgem e não devem ser recebidas como ameaças. Mesmo porque elas podem e devem representar esperança para o progresso e crescimento. Porém, esses novos caminhos serão perigosos quando adotados sem a comprovação adequada da verdade relativa. A Ortodontia baseada em garantias científicas utiliza-se do conhecimento e do comportamento racional para avaliar o desconhecido encontrado em todo extenso trabalho de pesquisa. Esse deveria ser o padrão ouro aplicado em todas as áreas do conhecimento. Padrão que exige tempo, esforço, dedicação, acompanhamento, rigor e muito trabalho. Em respeito ao cliente, ao paciente. Em amor, verdade e dignidade ao próximo. Definitivamente modernidade líquida não combina com excelência.

Roberto Lima Filho, Doutor em Ortodontia pela UFRJ; io Preto