Elevador de serviço

ARTIGO

Elevador de serviço

O abuso de autoridade no ocidente, umbilicalmente ligado ao preconceito de raça, cansou-se da ficção


Entre sístoles e diástoles chegamos ao caos, diria o professor Lênio Streck em suas reflexões machadianas sobre a República. Aliás, em "A Sereníssima República", o maior escritor brasileiro de todos os tempos, utilizando-se de uma alegoria eleitoral, dentre outras possíveis interpretações, analisa a cruel relação de dominação entre iguais, subjugados por um sistema político e social marcado pelo capitalismo, não hesitante em legitimar sua maior expressão, a opressão vitimizadora (Machado de Assis, domínio público).

Mas isso é coisa do passado, hoje temos os poderosos smartphones, capazes de inibir a mais boçal estupidez humana do século XXI, a soberba, pelo menos assim imaginávamos... ou assistimos muito MacGyver? O abuso de autoridade no ocidente, umbilicalmente ligado ao preconceito de raça, cansou-se da ficção alcançando contornos cotidianos em tristes cenas protagonizadas pelo copioso esforço do homo sapiens. Preguiçosa, desde o início, a lei de 1965 foi recentemente revogada, a final de contas, as pífias penas não assustava o mais raso soldado. Desde de setembro do ano passado a novel lei, em seu artigo 33, parágrafo único, diz que incorrerá em uma pena de 6 meses a 2 anos e multa, quem "se utiliza de cargo ou função pública ou invoca a condição de agente público para se eximir de obrigação legal ou para obter vantagem ou privilégio indevido".

Não adiantem os aplausos, aguardem ao final do espetáculo. No curto, mas profundo diálogo travado momentos antes da primeira audiência, na minissérie "Olhos que Condenam" (Ava DuVernay, Netflix), uma surda dor de estômago imprime o ritmo do que estaria por vir ao aficionado telespectador, escancarando os graves erros incertos no início da investigação do crime sexual perpetrado, que acabam por levar os cinco jovens negros à justificar os gráficos estatísticos do encarceramento em massa norte-americano: "- Por que nos tratam assim?; - De que outra maneira nos tratariam?" Triste exemplo, tão bem assimilado por uma elite tupiniquim de perfumes oxítonos, embebida de privilégios, sabedora de que as regras do jogo, definidas pelos senhores de engenho, segue uma lógica patrimonialista.

Assim nos acostumamos a conviver com essa elite que tudo pode, distribuindo "benesses" ao reproduzir a lógica perversa de que os pobres brasileiros lhes devem suas condições de sobrevivência, diante de um Estado que não as garante. Quanto menos Estado, mais "poucos com muito", assim se relacionam as patroas com "as quase da família", não é? Uma ferida que não cicatriza, ávida pela cura, exige atenção constante. Observar cada passo, vigiar cada pensamento, na percepção de que a justificativa está intimamente relacionada a uma estrutura cultural e valorativa violenta, que nos beneficia em detrimento dos outros, nos permitirá compreender claramente a reação de um simples desembargador quando advertido por um importante guarda municipal. Tão natural como distinguir um filme ouvindo a canção de Moricone.

Culpar o passado fazendo as pazes com o presente (Lilia Schwarcz) não vem surtindo efeito. Um país poderoso não se sustenta na voz das elites, mas no silêncio de um joelho dobrado e na lição de um homem de bem.

Paulo Younes, Advogado; relator-presidente da XI turma do Tribunal de Ética e Disciplina OAB/SP