Bom dia, tristeza

ARTIGO

Bom dia, tristeza

A maioria é mais rica do que se dá conta, porque a noção da riqueza é apenas aquela da acumulação


É porque hoje acordei tomado de uma profunda melancolia, a nostálgica lembrança de mais um amigo de infância, devorado pela pandemia. Mais um, porque é o segundo em questão de meses, mas este era um daqueles cuja proximidade distante se tornava eterna com o passar dos anos. Meninos à sombra de mangueiras seculares do quintal da casa, retornei à lembrança de um mundo distante que não mais existe, se não na memória dos românticos.

Tenho lido crônicas neste jornal, nas quais muito se acentua que pessoas mudaram para melhor, durante a pandemia. Gostaria que fosse verdade tudo isso, mas receio que quando tudo passar, a maioria se volte para a adoração do bezerro de ouro e esqueça suas promessas. Somos assim mesmo, inseguros e volúveis e o filósofo Sêneca acentua muito esta insegurança em nós, mostrando nosso esquecimento da vida como uma passagem que mais mereceria nossa atenção e desfrute. A gente perde um amigo, a gente chora a perda e, poucos dias depois, a alma lavada do luto ressentido, voltamos a ser os mesmos "imortais' de sempre.

A pandemia é o retrato do Caos e, sobrevivendo a ela, qual seria nossa conduta de atendermos ao princípio de que este Caos seja uma desorganização organizadora? Falamos de nosso livre arbítrio, mas nos esquecemos da aleatoriedade que rege os acontecimentos de nossa vida e assim passamos o tempo a acumular o que nunca vamos usar ou desfrutar por causa dela. E sabem por quê? Porque a maioria de nós é mais rica do que se dá conta, porque a noção da riqueza é apenas aquela da acumulação. Eu me dei conta da minha riqueza, quando durante a pandemia me senti desfrutando de um banho quente sob uma divina corrente de água limpa, para depois me acomodar para o sono da noite sob lençóis limpos e cobertores aconchegantes, Me senti milionário ao desfrutar do café da manhã e das refeições do dia, me senti vivo por trabalhar para o sustento.

Ter mais que isso é como viajar com a mala lotada de badulaques que nunca verão a luz do dia, pesada, inutilmente pesada, como um fardo que mais castiga do que premia. Então alguém me pergunta o que é felicidade. Mas como vou saber o que é felicidade, se eu não tiver sofrido a infelicidade de dias tristes e difíceis que ficam na memória? Bem disse Guimarães Rosa que felicidade e (in)felicidade é só uma questão de prefixo. A gente se lembra do sapato apertado que nos castigam os pés, mas alguma vez nos lembramos da fofura de um sapato cômodo? O dia em que o sapato te apertar os pés, o sofrimento te lembrará que eras feliz e não sabia, como Ataulfo Alves no samba que fala de sua meninice na pequena Mirai.

Perdi um amigo e sei que minha vida continua no plano terrestre. Espero que, dentro de alguns dias, eu não me surpreenda com a ideia que ele morreu e eu simplesmente continuo vivo. Mas que eu saiba reconhecer que se eu quiser a vida plena, deverei carregar comigo apenas os pertences que me pertencem para uma felicidade simples e não ilusória.

Wilson Daher, Médico psiquiatra; Rio Preto