Psicose na aldeia

ARTIGO

Psicose na aldeia

Uma parte da aldeia está psicologicamente doente e seus líderes não combatem essa doença coletiva


A psicanálise e a filosofia já estão e continuarão debruçadas sobre esse fenômeno social extremo em que nos encontramos: a normalização das mortes por motivos torpes e a banalização da vida. Para a narrativa não vagar em subjetividades filosóficas, vou direito à realidade objetiva e dialética produzida pela pandemia em nossa cidade.

Com uma média de 158 casos por dia e com mais de 200 mortes por Covid-19, como é possível alguns - como o prefeito da cidade - comemorarem a manutenção dessa insana abertura comercial, que é, cientificamente comprovada, a principal responsável pelo aumento dos casos e de mortes pela Covid-19? Vale lembrar que, quando o comércio e shoppings estavam fechados, a média de contaminação em abril e em maio eram de, respectivamente, três e 16 casos por dia, com o total de 23 mortes registradas. Parece que, de tão óbvia e urgente a necessidade de um isolamento social sério, torna-se impossível sua aplicação. Uma espécie de bloqueio paralisante que nos impede de realizar desejos simples.

Estamos vivendo uma incongruência assustadora de sentidos e sentimentos. A torcida ensandecida pela volta à normalidade nada mais é do que o medo da mudança de rotina, do estilo de vida e da adoção do simples como farol em tempos obscuros. 'Volta ao passado ou morte' parece ser o lema de parte do povoado. Uma parte da aldeia está psicologicamente doente e seus líderes não combatem essa doença coletiva; pelo contrário, alimentam o comportamento suicida. Apoiados nesse necrofenômeno, os piores interesses políticos e econômicos plantam suas táticas de domínio. A falta de esperança em dias melhores ganha força em territórios com lideranças omissas e incapazes de gerir a cidade na crise. É possível organizar o sistema de saúde para atender bem a todos, manter um isolamento social sério e eficaz, realizar a fiscalização permanente e a penalização daqueles que boicotam a saúde coletiva e mais, manter funcionando uma rede de proteção social e programas de transferência de renda vinculada ao comércio local para que os trabalhadores e os pequenos e médios comerciantes possam ter perspectiva e tranquilidade para ficarem em suas casas até o temporal passar - e ele vai passar.

No entanto, sempre terá um operador do direito disposto a expor dezenas de obstáculos jurídicos contra medidas que beneficiam o povo da cidade. Dizem não a arranjos administrativos que salvam vidas, mas dizem sim a improvisações, irresponsáveis e perversas, de UTIs, sabendo que não há profissionais de saúde capacitados para operá-las de uma hora para outra. São mais de 500 profissionais afastados e mais de mil contaminados. Essa criminosa gambiarra para mascarar a realidade e manter o vírus em plena circulação significa a morte como política de estado.

Em nosso caso específico, somos vítimas de uma psicose pessoal da autoridade máxima da cidade, sua obsessão pelo poder o torna uma liderança frágil, imediatista e medíocre. Tudo isso seria suportável em tempos de "normalidade". Mas essa psicose pelo poder já levou mais de 200 pessoas à morte e poderá levar muito mais. Não é o comando legitimado pela população que conduz a cidade. A psicose pelo lucro e pelo poder está nos guiando à maior tragédia da nossa história, é a falência múltipla de ética e humanismo da coisa pública. Denunciar diariamente a barbárie em nossa aldeia tornou-se a principal missão daqueles que se recusam a normalizar as mortes e o sofrimento humano. Lutaremos até o nosso último suspiro contra o vírus e contra os vermes que alimentam o vírus.

João Paulo Rillo, Ex-deputado estadual