A Casa de Cultura

ARTIGO

A Casa de Cultura

"Moro sozinha, com meus livros, meus discos e minhas palavras." Dinorath do Valle


No dia 10 de julho passado, Dinorath do Valle completaria 94 anos, e tenho certeza de que estaria lúcida e briguenta, glória a Deus. Em 2004, um infarto fulminante levou nossa escritora maior, numa data simbólica, Dia do Trabalho 1º de maio, sem amolar ninguém, morte serena quando ela se preparava para dormir. Saudade, saudade da Dinorath... Dezesseis anos depois, sua casa na Boa Vista, pesada de memórias, continua lá, do jeito que ela deixou, recebendo visitas esporádicas da filha Moema. O mesmo quintal de infância de interior, pomarzinho com três goiabeiras, bananeiras, mangueiras e outras espécies crescendo desordenadas. Lá respira-se Dinorath.

No dia da morte, escrevi matéria neste Diário: "Como editora dos textos da Dinorath nos seus últimos três anos de vida, publicados todo domingo no Diário, aprendi a gostar dela. Ela tinha um jeito de gostar. Era mais carinhosa nas palavras escritas. Não conseguia expressar afeto quando falava, mas a gente abstraía isso e percebia quão valiosa era sua opinião, de tudo, sobre tudo. Era de um inesperado afeto dentro das paredes de sua casa, abarrotada de livros (duas salas só para isso), com seus novelos de linha, sentada em folgada poltrona de vime com a gata Cidinha aninhada nos pés. A gatinha tinha uma cama ali mesmo, com lençolzinho florido e os mimos da patroa. Cidinha não aguentou e morreu quatro anos depois, de tumor e de saudade. Anos depois, voltei à casa numa quarta-feira de Cinzas e senti a presença de Dinorath. Tudo no mesmo lugar, livros, cadeira de vime, estantes, seu guarda-roupa com vestidos de linho enfileirados, sempre bordados. Olhei as prateleiras baixas da cozinha rodeando as paredes, panelas de tantos charutinhos de folha de uva enrolados nos domingos, assadeiras de muitos frangos assados nas manhãs da família, o liquidificador, bule do café, as travessas de frutas. Nada mudou. Moema é a guardiã. Dinorath continua lá, invisível e intensa, nossa maior escritora. E me pergunto: por que ninguém ainda se adiantou para fazer um memorial Dinorath do Valle?" (DR- 1/4/2014) Pois aí começa outro assunto: a Casa de Cultura, criada por ela há 50 anos (1968), por ela dirigida durante 30 anos (até 1996). Fica num quadrado cultural, junto ao Teatro Municipal. O nome da praça: Cacilda Becker. Tudo bonito, sugestivo e combinando. Menos o prédio, que se deteriorava. Felizmente, a Casa passou por completa reforma desde agosto passado para ser devolvida à população, para receber alunos que querem aprender Arte. Dinorath, professora de desenho artístico, incentivava as crianças no mundo da arte, criou os Salões de Arte Juvenil com concursos e participação maciça de alunos ricos e pobres. O prédio abriga os Núcleos de Artes e Cultura com aulas de dança, teatro e artes plásticas, beneficiando quase 3 mil alunos dos núcleos. Tudo gratuito e de qualidade. Sem contar os cursos, mostras, exposições, eventos e ensaios de artes e cultura, em diversas modalidades. E o mais genial: na entrada o Memorial Dinorath do Valle, com exposição de suas obras, objetos pessoais, fotos imensas de parede a parede, é ela dando as boas-vindas, venham aprender Arte, gente!, mexam-se, precisamos de inspiração, de criar, desejar, sonhar, flutuar, porque a vida não é só esse arroz-feijão patético! Agora que o Memorial é nosso, outra pergunta: quando vai surgir outra Dinorath do Valle?

Cecília Demian, jornalista, advogada, escritora, cadeira nº 6 da Academia Rio-Pretense de Letras e Cultura