O valor de uma vida

ARTIGO

O valor de uma vida

Nunca nos aproximamos tanto da morte como nesses tempos. Aflição para uns, incerteza para outros


Em seu romance Intermitências da Morte (Companhia das Letras, 2005)), o escritor português José Saramago desenvolve a ideia de uma reticente sede humana pela imortalidade, confabulada nos problemas práticos cotidianos trazidos pela ausência da morte. Mostra a euforia das pessoas com a inexistência da finitude humana, paradoxalmente, após algum tempo, aliviadas com seu retorno, diante da lotação hospitalar ocasionada pela ausência de mortes, a crise no mercado funerário, enfim, inconveniências decorrentes de um dito "excesso de vida" que desestabilizam inclusive as religiões com seus dogmas afinados à ressurreição.

Nunca nos aproximamos tanto da morte como nesses tempos. Aflição para uns, incerteza para outros, o tema se desenvolve e ganha contornos múltiplos, que vão dos textos normativos aos memes de whatsapp. Simone de Beauvoir, em Todos os Homens São Mortais (Nova Fronteira, 2019), também representou um imaginário de vida sem fim.

Essa real necessidade da morte para a renovação da vida, transposta à nossa realidade, é uma verdade irretocável. Mas seria esse um argumento hábil a descredenciar medidas voltadas ao necessário distanciamento social? Definitivamente não. Afinal de contas, a abreviação de uma vida não se legitima na certeza da morte, ainda que pela pontualidade da causa, qualquer que seja ela. Ou não? Na série The 100 (Netflix), cem jovens detentos foram enviados à Terra, desabitada por quase cem anos, devido a uma guerra nuclear. A missão tinha dois propósitos, desabitar a estação espacial prestes a esgotar seus recursos e, ao mesmo tempo, buscar soluções à continuidade da humanidade. As histórias que os romancistas contam são histórias que os historiadores não podem contar, afirma Vargas Llosa em seu ensaio A verdade das mentiras (Arx, 2007). Ainda em busca de uma reafirmação à vida, a realidade científica enche de orgulho o mais cético humano, quando o tema é a reprodução humana assistida. Nas palavras do professor pernambucano Eduardo Dantas, "a medicina nos permite hoje, desenvolver embriões, selecionar suas características de fenótipo e genótipo, congelá-los, implantá-los em mulheres que gestarão filhos alheios, ou mesmo nos permite que tenhamos filhos muitos anos após a nossa morte". E, enigmaticamente, conclui o jurista afirmando que a realidade não espera por respostas, mas "atropela as perguntas, criando desafios cada vez mais incrivelmente próximos do cidadão comum (...) (Direito Médico, Juspodivm, 2019).

Nestas parcas citações, o aparente contraste entre a vida e a morte - acredito na morte como um momento da vida -, permite-nos artística ou cientificamente criar cenários fantásticos envolvendo ambos os temas. O cinema, a literatura, a filosofia, o direito e a medicina são alguns destes incríveis veículos reveladores da genialidade humana. Uma realidade que nos assusta e entristece ao vivenciarmos atitudes que reafirmam a morte em sua mais mesquinha face: a morte que se perfaz ainda em vida, aquela que desdenha, que humilha, que chega paradoxalmente a duvidar da própria vida. Uma realidade que nos alegra e enche nossos corações de esperança, na finitude digna valorizadora de toda uma vida. Prescindir ou negar a existência de um direito fundamental de morrer dignamente, que não se opõe ao direito à vida, mas o complementa, é fechar os olhos para o momento de chegada de todos nós. É negar um momento único merecedor de uma valoração única, não apenas do momento em si, mas de tudo o que o antecedeu.

Paulo Younes - Advogado, relator-presidente da XI Turma do Tribunal de Ética e Disciplina OAB/SP.