SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 05 DE DEZEMBRO DE 2021
ARTIGO

40 anos de memória e afetos

Segundo meu pai, eram pinturas do Silva, "um artista moderno". Pareceram-me obras infantis

Adib Muanis Júnior
Publicado em 17/07/2020 às 22:43Atualizado em 06/06/2021 às 23:41

A neurociência comprovou que a memória precisa de contatos e relações para a boa evocação, e que seu estímulo mais eficiente é o afeto. Assim, algumas memórias parecem deixar de ser pensamentos para serem imagens, cheiros e sabores que se fixam em nós num amálgama de sensações e sentimentos nítidos e inabaláveis. Por outro lado, há vivências cotidianas que parecem passar por um pro­cesso autolimpante e simplesmente se esvaem. A noção de finitude que esses processos trazem evidenciam nossa fragilidade e, ao mesmo tempo, nosso contato com o eterno.

Talvez num intento de resgatar o frescor dos começos, minha turma de faculdade iniciou contatos para celebrarmos quarenta anos da nossa matrícula no curso de Letras do Ibilce. Voltamos a nos falar regularmente, trocar velhas fotos e tecer um cerzido fino de reencontros e atualização do carinho. Entre as muitas lembranças, ficou uma de 1979, quando Romildo Sant'Anna, nosso professor de Literaturas Hispânicas e História da Arte, convidou a turma para conhecer, em sua casa, uma coleção de quadros do Silva. A imagem serena da família contrastava com a parede pichada da biblioteca, instalada no mezanino, onde estavam meticulosamente expostas as telas. Aquele professor crescia em brilho e entusiasmado ao falar do preparo do futuro Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva', a ser inaugurado em julho de 1980.

Pessoalmente tive, ao ver aquelas obras, uma sensação de "dejavu". Não estava errada. No início da década anterior, voltando de Brasília, passamos por Rio Preto e, cumprindo a tradição familiar de conhecer, em cada cidade, um templo e um campo de futebol, paramos na Igreja da Redentora. Lá vi pela primeira vez uma Via Sacra que ocupava as paredes da nave principal. Segundo meu pai, eram pinturas do Silva, "um artista moderno". Pareceram-me obras infantis, sem o retoque de algum adulto habilidoso que arrumasse as proporções e os contornos. No entanto, fiquei encantada com as cores e a dramaticidade daqueles quadros cheios de religiosidade.

Desde a inauguração, tivemos algumas aulas com o Prof. Romildo no próprio Museu do Silva, no prédio da Biblioteca Municipal. As explicações de que o pintor se ligava à modernidade brasileira evidenciaram que sua pintura não era "sem capricho", mas uma forma de representar nossa identidade brasileira. Confirmei, ao morar e estudar na Espanha e Estados Unidos, que o extraordinário naïf rio-pretense era conhecido e reconhecido mundo afora. Ficam as lições dos excelentes professores que tivemos na Unesp, a de que José Antonio da Silva foi um homem de singular lucidez cultural e ecológica, os afetos que resistem ao tempo e as memórias do convívio.

Além da memória, a neurociência explica nossa necessidade de pertencimento, adaptabilidade e a transmissão da cultura pela intermediação humana. Nascemos biologicamente equipados, com neurônios espelho em nosso kit de estratégias adaptativas, e vamos refletindo, não só bocejos e sorrisos, mas comportamentos que definem nossa humanidade. Desejo que, por gratidão e conveniência, ainda tenhamos um museu tão grandioso e de tanta incidência na produção cultural da cidade, como aquele sonhado e planejado visionariamente pelo artista de vanguarda. Um museu compatível com o amor e a importância que o próprio Silva deu a Rio Preto.

Rosana Malerba, Tradutora, psicopedagoga clínica, especialista em Medicina Comportamental

 
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