Consequências das fake news

ARTIGO

Consequências das fake news

Gostamos de ler o que se encaixava em nosso pensamento. E isso deveria ter sido um alerta


Quando pensamos nas eleições de 2018, pensamos imediatamente na campanha online, que ocorreu de uma forma nunca vista. Esse método não foi criado especificamente para o Brasil. Nos EUA, o atual presidente utilizou o mesmo método agressivo: divulgação de qualquer notícia. No jornalismo existe a máxima de não publicar sem investigar profundamente as suas fontes, portanto, quando começaram a espalhar fake news, compartilhando sites supostamente jornalísticos, muitos não questionaram, apenas aceitaram. Isso remete a uma mistura das teorias da comunicação, como a teoria Hipodérmica, a da Persuasão e a Empírica de Campo que, ao serem analisadas, nos levam à conclusão de que a mídia, enquanto grande influenciadora, tem um importante papel social e atinge a todos sem distinção. Cabe a nós filtrar a mensagem. Mas estávamos tão confiantes na sua veracidade que não aprendemos a questionar de onde ela veio. O jornalismo sério nos deu a segurança de que qualquer informação seria confiável. Então, quando começamos a receber via WhatsApp notícias de blogs partidários, consideramos como verdadeiras.

Gostamos de ler o que se encaixava em nosso pensamento. E isso deveria ter sido um alerta, pois uma notícia não deve agradar, mas sim, informar. Depois, voltamos a questionar qualquer informação lançada, talvez pela batalha dos veículos de comunicação em desmentir as fake news, talvez pelo pensamento crítico adquirido depois de alertas no subconsciente. Porém não exigimos nenhuma ação. Agora, no meio da pandemia, as fake news se transformaram em uma questão de saúde pública, interferindo na segurança da população e atrapalhando o trabalho das autoridades. Não existe nenhuma lei que impeça a sua disseminação, ou uma forma jurídica de abordá-la diretamente. De fato, no ordenamento jurídico brasileiro, qualquer questão relacionada à internet é ainda recente. Enquanto o STF está ocupado com o inquérito das fake news, algo novo, não existe nenhuma medida prática de como lidarmos com elas. As redes sociais mais famosas, como Facebook e Twitter, implementaram uma série de novas regras para seus usuários. Apesar de admitirem um certo atraso em suas ações, já que muitos especialistas atribuem os resultados das eleições americana e brasileira à disseminação de informações inverídicas, o foco dessas empresas é na questão da saúde mundial. Elas passaram a colocar alertas em notícias "sem comprovação" e também criaram meios para que os usuários denunciem quem as dissemina.

Mas cabe a pergunta: sabemos filtrar e entender o que lemos? Sabemos diferenciar notícias reais das criadas para agradar e criar rachaduras na já frágil sociedade política? Penso que ainda não. Contudo, começamos a despertar. A falta de informação real e segura sobre o Covid-19, nos fez questionar mais o que recebemos do colega por mensagem de texto. Talvez devêssemos perguntar: existem múltiplas fontes nas notícias? As pessoas citadas são especialistas? O meio de comunicação é confiável? Foi noticiado em mais de um lugar? Esses questionamentos podem facilitar a filtragem de informações, enquanto não temos um norte seguro para seguir. No momento, as fake news podem custar vidas. Ignorá-las e suas consequências pode custar caro no combate ao Covid-19. O bombardeio de informações imprecisas sobre o vírus é, de fato, uma questão de saúde pública. As fake news em geral, são de fato, uma questão de segurança social.

Maria Flávia Calil, Escritora, Rio Preto