Vários autores - Livre para pensar

ARTIGO

Livre para pensar

Somos livres para pensar. Mas quantos pensam na evolução das formas de se viver em sociedade?


No livro de Mark Rowlands, "O filósofo e o lobo" (Editora Objetiva), logo no início há alusão à clareira como ponto único capaz de observar a floresta, normalmente muito densa para ser vista em seus detalhes. Nesta pandemia, talvez seja possível olhar para o todo social e distinguir traços de humanidade.

Se há exceções (e acredito mesmo que sejam exceções), quando os homens revelam o pior de si, seja nas redes sociais ou nos negócios, onde o mais importante é o lucro, certamente existe o outro extremo, em que a solidariedade e o companheirismo sobrepujam a materialidade imperante.

Mais ou menos como na política do século 21, na qual arrebatamentos das pontas do espectro político assustam os mais comedidos, há duas correntes conflitantes que estão longe da maioria, mas sempre dão a impressão de estarem perto do sucesso, pelo barulho que fazem ou pela agressividade que manifestam.

Nem sabemos direito até onde chega o alcance e o poder dessas vertentes assustadoras do universo político. Quando observamos aqueles que defendem abertamente a exceção ou os que falam de forma rasgada e atrevida em favor dela, há que se perguntar se teremos futuro como civilização. Ou se todo o impressionante avanço tecnológico nos deixou perto da barbárie.

Observar, por exemplo, a volta da autocracia em muitas latitudes, é algo extremamente desanimador para quem acredita na evolução das formas democráticas de governo. Como também é desalentador assistir atos terroristas e a morte de inocentes nas ruas do mundo. Não há desculpa para a involução!

Mesmo na provavelmente mais avançada democracia do mundo, aquela que é capaz de se levantar contra a morte de um cidadão negro por um policial branco, dando esperanças ao predomínio da Justiça, há aqueles que vão para as redes denegrir o morto, acusando-o mentirosamente de um sem número de crimes. E isso se reproduz entre nós ...

Tudo isso para chegar às perguntas: onde nos levará essa internet sem freios e sem regulamentação? Será que o princípio da liberdade de pensamento pode ser subvertido a ponto de permitir a ofensa, a injúria e a difamação? Sou livre para proferir palavrões e xingar abertamente meu semelhante só porque discordo dele? Pode o poder econômico instrumentalizar politicamente esse conhecimento?

A metáfora da clareira no meio da floresta serve para comparar o quê? O que somos, clareira ou floresta? Será que o pequeno ponto limpo é capaz de explicar a densidade da escuridão próxima? Ou o obscurantismo será capaz de engolfar a mentes mais lúcidas posicionadas no anel de inteligência? Ao longo do tempo, o que prevalecerá?

Somos livres para pensar. Mas quantos pensam na evolução das formas de se viver em sociedade? Aquela sociedade em que sua liberdade vai até encontrar a liberdade do outro. Ou, ainda, aquela liberdade capaz de buscar como objetivo a equidade social e a distribuição de justiça. Somos uma democracia em formação. Se não formos suficientes para aperfeiçoá-la neste momento, estaremos sujeitos a deformá-la irremediavelmente.

Laerte Teixeira da Costa, Vice-presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores) e ex-vereador de Rio Preto