O sonho e a borboleta

ARTIGO

O sonho e a borboleta

A história mudou. O mundo colonial espanhol ficou limitado a Cuba e novas tentativas de desembarque no continente foram recebidas com ainda mais fúria


Leandro Karnal
Leandro Karnal - R. Trumpauskas/Divulgação

Dizem que uma borboleta bate as asas e do outro lado do mundo surge um tufão. Ideia estranha. Pode existir uma causa-efeito tão remota e uma história alternativa? Podemos fazer uma ucronia, uma história hipotética e contrafactual? Uma borboleta agitou suas asas e... O silêncio da madrugada foi cortado por um grito forte. Acamapichtli tivera um pesadelo tão real que acordou suado. Ele era um sacerdote respeitado em Tenochtitlán, a pujante capital asteca. A esposa despertou junto e ouviu o relato que logo seria conhecido em toda a cidade. Os sonhos eram importantes para aquela sociedade. O sonho de um alto sacerdote que levava o nome em homenagem ao fundador da dinastia imperial era ainda mais importante. O dia ainda não raiara e o sonhador estava no palácio de Montezuma II. O soberano estava com um mingau de chocolate nas mãos quando o sacerdote contou o presságio. Já naturalmente religioso, o líder ficou tão impressionado que deixou a fina cerâmica cair. A história era horripilante! Acamapichtli viu a chegada de homens do Ocidente, liderados por um demônio barbado. Eles desembarcaram na costa do atual Golfo do México e, dois anos depois, doenças e morte tinham chegado ao vale central da cidade lacustre. Os canais seriam preenchidos por cadáveres. Montezuma II seria assassinado com uma pedrada.

Doenças trazidas pelos seres malévolos destruiriam a maioria dos súditos. As estátuas respeitadas dos deuses seriam quebradas no Templo Maior e o povo do quinto sol seria escravizado. O soberano ouviu e tapou o rosto com as mãos. Pediu ao respeitado visionário que permitisse um tempo de reflexão.

No meio do dia seguinte (no calendário que conhecemos hoje, 21 de janeiro de 1519), convocou os guerreiros-águias e despachou todas as forças militares para a costa de onde os demônios deveriam desembarcar. Ordenou um generoso tratado de paz com a rival cidade de Tlaxcala e ofereceu presentes opulentos para que os tlaxcaltecas fizessem parte da vigília sagrada contra o mal que atacaria todos. E assim foi. Quase 300 mil guerreiros desceram à costa do Golfo e prepararam uma quantidade enorme de flechas, lanças, escudos, armadilhas e pontos de tocaia.

O mal previsto no sonho do sacerdote chegou pouco tempo depois. Eram navios muito altos. Disfarçados e atentos, os guerreiros aguardaram. O plano dos súditos astecas foi bem executado. Hernan Cortés e seus homens desembarcaram, todos ébrios por glórias e fortuna. Mal pisaram na areia e foram atravessados por uma chuva de flechas envenenadas. Canoas rápidas saíram de seus esconderijos e incendiaram os barcos que estavam ancorados. Os poucos espanhóis que conseguiram pular no mar... morreram afogados.

A profecia de Acamapichtli salvara a federação. Houve festas imensas. As armaduras de metal foram trazidas e o ferro começou a ser fundido. Os cavalos sobreviventes se reproduziram, criando uma força nova que facilitou a expansão do poder asteca por áreas ainda maiores. Depois de alguns atritos ao longo de 1620, os incas uniram-se ao governo asteca. Graças ao formidável sonho do sacerdote, o mundo indígena viveu nova era de esplendor.

A história mudou. O mundo colonial espanhol ficou limitado a Cuba e novas tentativas de desembarque no continente foram recebidas com ainda mais fúria. Sua Majestade Católica jamais recebeu o ouro da América e os banqueiros não financiaram a compra da coroa de imperador para Carlos da Espanha. Sem forças para resistir ao crescente movimento de reforma religiosa e sem o fluxo de metais para pagar as tropas, as forças espanholas viraram mera potência regional. Os Países Baixos, toda a Alemanha, a França por completo e a própria Itália aderiram ao credo reformado. A morte de Clemente VII encerrou a mais antiga coroa europeia. Nenhum papa foi eleito para o seu lugar. Não cresceu a Contrarreforma e os jesuítas desapareceram após a primeira geração de padres. O Barroco não vingou: não existia motivo para sua existência. As obras da Basílica de São Pedro foram interrompidas e nunca retomadas. Cem anos depois do sonho do sacerdote mexicano, Giordano Bruno morreu de velhice e Galileu, luterano convicto, publicou dezenas de obras desenvolvendo uma revolução astronômica ainda mais impactante.

Com o vendaval burguês de ênfase no valor do trabalho e da riqueza como sinal divino, a Europa começou uma Revolução Industrial ainda no século 17 e a corrida imperialista sobre Ásia e África completou-se nos anos iniciais do século 18. Ao atacarem a China com tropas, em 1712, os soldados entraram em contato com uma doença nova, uma espécie de gripe devastadora, acompanhada de anosmia (impossibilidade de sentir cheiros) e febres altas. A nova peste chegou ao continente ocidental onde o Império Asteca tinha se fundido com o Inca e formado o mais poderoso governo do Novo Mundo. Em Machu Picchu, o brilhante Vale do Silício da ciência, foi descoberto o remédio que curava o terrível mal. Por ironia poética, o autor da descoberta era descendente direto de Acamapichtli, o zeloso sacerdote que, um dia, tivera a noite abalada por um pesadelo profético. Devaneios noturnos são como asas de borboleta nos tufões internos da razão adormecida. Boa semana (e bons sonhos) para todos nós.

Leandro Karnal, Historiador e filósofo. Escreve duas vezes por semana no jornal Diário da Região e mensalmente na revista Vida & Arte