Discrição

ARTIGO

Discrição

O vereador, homem de pouca cultura, se encolhia dentro de si. Angustiado, ouvia, ouvia e só ouvia...


-

Discrição, no dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, tem como significado sensatez, discernimento, caráter de quem é discreto, recatado e alguns outros sinônimos. Por sua vez, discreto é alguém que é reservado em suas palavras e atos, alguém que é modesto, recatado.

Postas estas breves considerações sobre os significados de discrição e discreto, passo à narrativa, uma história do ontem, talvez uma das décadas (50 ou 60), do século passado, não me lembro muito bem. Os personagens, um maduro vereador e um jovem universitário. O cenário, o Palácio Alencastro, sede do governo do estado do Mato Grosso, na cidade de Cuiabá, sua capital. Naquela época ainda não se efetuara a divisão, que gerou o Mato Grosso do Sul, cuja capital é Campo Grande. O motivo do encontro: a comemoração por algum evento significativo (não me recordo de que natureza), o que fez com que o governador do Estado convocasse todas as lideranças do seu staff político para comemoração oficial.

Dentre os convidados - como já registrado - encontravam-se um vereador de um pequeno município mato-grossense e um acadêmico do último ano do curso de medicina, filho de um dos líderes políticos do governo. Era, enfim, uma reunião menos social e mais de caráter político. Em consequência choveram discursos de palavras preparadas, repletos de vigorosos substantivos e de resplandecentes adjetivos a exaltar qualidades pessoais legítimas ou irreais dos representantes políticos estaduais, presentes à cerimônia.

Depois de cumprirem a fase do cerimonial, as pessoas foram conduzidas a um suntuoso salão. Por um (in) feliz acaso, o acadêmico postou-se próximo ao vereador. Não se conheciam. A equipe gastronômica passou de pronto a servir um lauto coquetel, composto de bebidas caras, das mais variadas, e de uma infinidade de canapés. O vereador, que era amante de um bom scotch acompanhado de petiscos, fossem quais fossem, lançava o olhar sobre os que eram servidos, mas o acadêmico não permitia que suas mãos alcançassem o alvo, prendendo-o numa maçante conversa, cujo tema era a fome no Brasil e no mundo. E lá disparava o discípulo de Hipócrates, - olhos arregalados e dentes à mostra - a descrever as agruras e consequências da fome que campeava pelos quatro cantos do mundo. O vereador, homem de pouca cultura, se encolhia dentro de si, sem entender e, embora alheio ao assunto, para não ser indelicado, não tirava os olhos do expositor. Angustiado, ouvia, ouvia e só ouvia...

Enquanto isso, convidativos canapés, drinques, os mais diversos, em copos de fino cristal, além de esplendorosas garrafas de uísque de legítima origem escocesa, passavam inacessíveis a ele em razão da tediosa conversa do acadêmico. Este, como estivesse falando para um vasto público, limitava-se a tomar, em irritantes e parcimoniosos goles, a água que lhe fora cedida no início do coquetel pelo desditoso vereador. E o enfastiante discurso não chegava ao fim, pois o orador era daqueles que falava até às espumas, que se acumulavam nos secos cantos da boca. Mas, como não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe, alguém, enviado pelos deuses da discrição, anunciou que o jantar seria servido de imediato.

Entre alegre pelo anúncio e puto da vida por não ter, nem discretamente sequer, se deliciado com os drinques e canapés, encaminhou-se para uma das mesas, fugindo do verborrágico estudante. Este, porém, o seguiu, mas foi obstado por outro conviva que ficou entre eles. Aliviado, o vereador, enquanto se servia da saborosa comida cuiabana, percebeu o estudante colocar uma pílula na boca e engoli-la. O homem que se sentara ao seu lado perguntou ao acadêmico: "É remédio?" O quase médico, ao invés de responder à pergunta, passou a fazer um discurso de advertência a quem come em excesso, etc. e etc. O não tão discreto conviva que lhe fizera a pergunta, o interrompeu e fuzilou: "Não preciso de conselho nem de receita, apenas quero saber se é remédio o que você engoliu". O estudante, em uma quase inaudível resposta, murmurou: "É moderador de apetite". Triunfante, sentindo-se reparado, o vereador sorriu... Discretamente.

Robledo Morais, Juiz de Direito aposentado.