Novo normal?

ARTIGO

Novo normal?

Faz parte da saga humana um contínuo "aprender, desaprender e reaprender", em novos contextos


A partir do momento em que a Covid-19 tornou-se um problema de saúde pública mundial, a expressão "novo normal" passou a ser exaustivamente empregada como um tipo de mantra exaltando um possível cenário futuro, como se algo assim jamais tivesse sido experimentado pela criatura humana. Aqui, porém, cabe perguntar: essa interpretação é realmente adequada? Não nos parece. E por uma razão muito simples. O singular avanço da ciência nos últimos séculos tem compelido a humanidade a conviver com inevitáveis e continuados "novos normais".

É o que mostra, por exemplo, o best-seller "Sapiens - Uma breve história da humanidade", do historiador Yuval Noah Harari. Lançado em Israel, em 2011, o livro tornou-se sucesso em mais de 40 países. Certamente, a razão para isso foi a maneira admirável e cativante que ele encontrou para narrar o que os editores chamaram de extraordinária aventura do homem: "de primata insignificante a senhor do mundo". Mas, chama a atenção o capítulo 14, "A descoberta da ignorância". Nele, o autor aborda as grandes transformações que ocorreram na humanidade após a Idade Média, a partir da seguinte reflexão: "Se, por exemplo, um camponês espanhol tivesse adormecido no ano 1000 e despertado 500 anos depois (...), o mundo lhe pareceria bastante familiar". Ou seja, a Idade Média foi um período sem grandes novidades. No entanto, continua, se alguém tivesse caído no sono em 1500 e acordasse no séc. 21, encontraria um mundo estranho e seria incapaz de compreendê-lo.

Para ilustrar esse contexto, Harari lembra que, em 1522, a expedição de Magalhães regressou à Espanha após uma viagem de 72 mil km, que durou três anos para ser concluída. Em 1873, Júlio Verne estimou que poderia contornar o mundo em 80 dias. Hoje, pode-se circum-navegar a Terra em apenas 48 horas. No período pós 1500, ainda, o autor relata que o homem conseguiu ver o primeiro micro-organismo (1674), detonar a primeira bomba atômica (1945) e aterrissar na Lua (1969). Esse boom, que o retirou das trevas e o apresentou à luz do conhecimento, só foi possível graças à Revolução Científica. A conclusão é de que faz parte da saga humana um contínuo "aprender, desaprender e reaprender", em novos contextos, dos mais comezinhos hábitos e comportamentos até a sublimidade de valores morais, como a solidariedade humana.

Inúmeras "mestras" comprovam isso, como a pandemia que ora nos submete e cujas práticas, como higiene das mãos, uso de máscaras, distanciamento social, isolamento e quarentena, foram os incipientes novos normais do passado, hoje "velhos normais" ressuscitados com bases científicas modernas e consentâneas com os atuais paradigmas da saúde sanitária. E não só. O que falar da transmudação a que estarão sujeitas todas as práticas candidatas a novos normais, de hoje e principalmente do futuro, independente da área de interesse humano, diante do vertiginoso avanço científico e das consequentes inovações tecnológicas que nos esperam. É aguardar, para ver...

Ademar Pereira dos Reis Filho, Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro; diretor da Fatec Rio Preto.

Eurípides A. Silva, Mestre e doutor em Matemática pela USP e aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp de São José do Rio Preto.