Quatro amigos

ARTIGO

Quatro amigos

Homens de negócios, foram responsáveis pela geração de milhares de empregos


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Quando um amigo parte desta vida, é comum invocarmos a falta que fará para familiares e amigos que ficam por aqui mais algum tempo. É o sentimento natural, humano. Mas quando se vai um amigo que tem relevância social, sentem sua partida não só os amigos e os parentes, mas toda a comunidade na qual ele viveu e pela qual se dedicou.

No período da pandemia do coronavírus que assombra o mundo, perdi em menos de três meses, entre março e junho, quatro queridos que tinham em comum essa característica. Fizeram muito por Rio Preto. A cidade perdeu empreendedores que deixaram suas marcas e fizeram história: Domingo Marcolino Braile, Ascolo Martin, Afonso Oger e José Paschoal Costantini.

Homens de negócios, foram responsáveis pela geração de milhares de empregos, durante décadas. Eram meus irmãos de ideais. Estiveram sempre ao meu lado na busca de ações que gerassem desenvolvimento econômico, bem-estar e crescimento das pessoas, especialmente as que mais precisam, por meio de entidades.

Braile era humanista, um ser desprendido. Aviador, médico, industrial, inventor, fundador de hospital. Um dos maiores cirurgiões do país. Homem da ciência, era também homem de fé. Pregava a importância da crença na cura de doenças. Rompeu fronteiras e se tornou um grande nome na história da medicina. Com ele vivi momentos memoráveis quando ele foi conselheiro de entidades como Acirp, da qual fui presidente, e Funfarme, cujo Conselho de Curadores presidi nos anos 1980.

Oger, desbravador do sertão mato-grossense, fundador do Expresso Itamarati, não descuidou do lado social da cidade. Foi grande rotariano, clube de serviços no qual milito há 40 anos. Em 1967, participou da fundação da Apae. Anos mais tarde, apoiou nosso clube rotário na ajuda à mesma entidade com reforma e doação, duas vezes, de um ônibus escolar e de uma perua Kombi. Como os grandes benfeitores, gostava do anonimato. Dispensava gabinetes e salas de diretoria. Preferia as oficinas de sua empresa, no meio de funcionários. Muito simples, embora disciplinado.

Ascolo, assim como a minha, é dono de uma história de menino pobre que lutou bravamente e perseverou com muito trabalho até se transformar num dos maiores empresários do país no ramo de colchões e estofados. Era benemérito. Entre tantas ações, apoiou o trabalho social de Frei Francisco Belodi para equipar barco-hospital flutuante que atende população ribeirinha na região amazônica. Filho de italianos, extremamente religioso, era também apaixonado por futebol. Até os últimos dias de seus mais de 80 anos participou ativamente de rachas de bola com funcionários na Pelmex, uma de suas empresas. Desfrutei de sua gostosa amizade e convivi com seu bom coração em frequentes encontros familiares durante anos.

Costantini foi líder atuante. Colaborou imensamente para Rio Preto se firmar como segundo polo joalheiro do país. Presidente da Acirp e do Prodei, diretor do Ciesp, esteve sempre ligado à vida dos empresários e, portanto, do desenvolvimento econômico da cidade e da região. Memorável foi sua participação na construção da sede da Fulbeas, com doação de um galpão. Chegou a construir um mini-hospital em suas terras para atender funcionários e a comunidade carente da região no Centro-Oeste.

Vou sentir muitas saudades dos quatro. Já estou sentindo. Pela amizade que nos unia e pelas características comuns. Todos tínhamos avião. Com exceção de Ascolo, todos fazendeiros. Todos desprendidos e despretensiosos, sem ligar para a vida política partidária. Éramos filiados ao Partido de Rio Preto. Não estávamos todos os dias um ao lado do outro. Mas todos nos sentíamos muito próximos um do outro. A vida inteira.

Daniel de Freitas, Empresário; Rio Preto.