As pedras da Lua

ARTIGO

As pedras da Lua

Busca por conhecimento para o desenvolvimento de economia limpa vai alavancar a oferta de riquezas


Em 1961 o presidente John Kennedy lançou um desafio à sociedade americana:levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança. Mais do que isso, o feito deveria ser realizado antes do final da década. Em 1963 Kennedy foi assassinado, mas os Estados Unidos seguiu em frente e se lançou em um dos mais importantes desafios para o processo civilizatório no século 20. Em 20 de julho de 1969 a nave espacial Apollo 11 estabeleceu um novo marco na história humana. Pela primeira vez um ser humano pisa em um território que não pertence ao Planeta Terra. De lá foram trazidos 385 quilos de pedras, nas diversas missões Apollo, que ainda aguardam estudos mais detalhados por pelos cientistas. "Muito dinheiro dos contribuintes para nada", disseram conservadores e jornais da época.

Kennedy, ao lançar o desafio certamente não estava pensando no valor científico ou econômico do que seria encontrado na Lua. Estava, na verdade, estabelecendo metas para um grande salto tecnológico, que tirou o mundo de um cenário restrito do pós-guerra, para lançá-lo em um real processo de inovação, transformação científica, tecnológica e de globalização. Da decisão tomada em 1961 surgiu toda uma nova perspectiva planetária a partir do desenvolvimento de computadores menores e mais eficientes, tecnologias de comunicação, satélites, microchips, universalização do acesso à internet e às telecomunicações em geral.

Sociedade e economia que emergiram desta decisão são mais rápidas, trabalham com mais informação e saber e são educacionalmente mais qualificados do que tudo o que existiu. Claro que não conseguiu resolver todos os problemas e mazelas da humanidade. Teve uma parte expressiva de suas tecnologias destinadas a usos militares e criou novos problemas. No entanto, é inegável que mudou o mundo.

Nestas primeiras décadas do século XXI surge o desafio de enfrentar as mudanças climáticas e os desequilíbrios sociais e ambientais de forma criativa. Da mesma forma que a conquista da Lua foi um fator decisivo para a transformação civilizatória do final dos anos 1900, a busca por conhecimento, ciência e tecnologias para o desenvolvimento de uma economia limpa, eticamente comprometida com o combate à desigualdade é o fator que vai alavancar o crescimento da oferta de riquezas nos próximos anos.

A biocivilização preconizada pelo economista Ignacy Sachs, uma mente brilhante a serviço de construir e propor hipóteses de desenvolvimento realmente inovadoras, é, sem dúvida, a transformação necessária para a enfrentar os desafios capazes de mobilizar as forças extraordinárias do mercado e da sociedade em direção a um modelo econômico não planetariamente antropofágico. Sachs acredita que a produção e usos de biomassas podem alavancar uma modelagem econômica com novas empresas e tecnologias, com mais distribuição de renda pelo trabalho e com imensa capacidade de regeneração de biomas e ecossistemas. Ele vê biomassa como matéria prima para quase todos os usos que a humanidade possa precisar: matérias primas florestais para energia e indústria, biotecnologia de base para desenvolvimento de produtos, bioenergia a partir de celulose, transformando qualquer resíduo vegetal em combustível, etc.

Além disso, uma organização social diferente, com estruturas de mobilidade coletiva e alto valor para educação e cultura completam o quadro de um desenvolvimento limpo. É muito importante que a atual geração olhe para o petróleo com mais responsabilidade. De todos os usos que se pode dar a este recurso, o pior e menos nobre é queimar em motores de automóveis.

Dal Marcondes, Diretor da agência Envolverde.