Porque não saímos do lugar

ARTIGO

Porque não saímos do lugar


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Sabemos que as crises trazem conflitos pessoais, sociais, sabemos também que trazem grandes oportunidades de recomeço. Dê uma espiada na história e verá que é assim. Primeiro temos os medos, angústias e logo depois começamos a ver que é parte de um ciclo maior, a própria vida.

Essa pandemia vai provocar muitas mudanças em nossas vidas. Teremos que nos readaptar aos novos caminhos que serão traçados, ora pela destruição provocada pela crise, ora pelas novas oportunidades que surgirão.

Nada será igual na economia, na pesquisa científica, nas relações interpessoais, na educação, nos meios de comunicação, nos governos e nas relações sociais. Se teremos um mundo pior ou melhor ainda é cedo para dizer, o que podemos afirmar é que será diferente.

Torçamos para que as coisas também mudem no campo dos valores morais e éticos, ou pouco adiantará a descoberta do remédio ou da vacina. As grandes crises sempre têm o poder de mudar o mundo, redesenhar a história, teremos que ser protagonistas dessa "nova" fase dessas mudanças.

Vamos ter que conversar e ver onde erramos e o que tem que ser feito para que o mundo possa ser um lugar mais tranquilo para se viver, produzir. Como deverá ser reconstruído o novo mundo! É possível continuarmos com a renda concentrada na mão de uma pequena minoria?

A tecnologia poderá continuar na mão de meia dúzia de países, enquanto a maioria ainda não alcançou o estágio da industrialização. O sistema de ensino que é o catalizador e distribuidor do conhecimento e riquezas poderá continuar tão ruim e fragmentado?

O uso do solo urbano, a vergonhosa falta de saneamento, a urbanização desconexa (só para lembrar mais de 50% da população mundial mora nas áreas urbanas), o desprezo pelo meio ambiente que são fundamentais para a saúde sanitária poderão continuar no improviso, sem planejamento, sem uma melhoria estrutural efetiva.

É possível criar novas possibilidades de vida e convivência sem fortalecer as instituições, sem uma democracia plena. Evidente que teremos desafios importantes pós-pandemia e isso não se resolve com um e daí?

O mundo nunca foi um lugar tranquilo, infelizmente o homem não permitiu. Estamos passando por um processo de disrupção muito forte e é nessa questão que deveremos ser não somente fortes e lúcidos, mas determinados a seguir o rumo certo, alicerçados pelo planejamento, pela ciência e pelos novos arranjos sociais. O oportunismo precisa dar lugar à sensatez e à lealdade.

Acordem, vamos ter um desemprego altíssimo e perigoso, protecionismo comercial, queda dos investimentos, redução do comércio entre os países e milhões de pessoas irão para a pobreza extrema.

Um estado democrático forte nos dará a segurança para fazer essa difícil transição. A questão não é só se vamos ou não virar uma Venezuela, é mais complexo. É saber porque o Brasil, ciente do diagnóstico de seus problemas e com tantas possibilidades favoráveis na economia, na questão geopolítica insiste em não sair do lugar, há décadas.