Dois minutos de ódio

ARTIGO

Dois minutos de ódio

O mundo de "1984" ainda não acabou, o que leva muita gente a sentir muito mais do que só 2 minutos de ódio


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Logo após o final da 2ª Guerra Mundial (1945), o já então consagrado escritor inglês George Orwell (1903-1950), para afastar-se das atribulações da cidade de Londres, refugiou-se num lugarejo remoto e frio, numa ilha ao norte da Escócia. Para os padrões ingleses da época, lá seria uma espécie de fim do mundo. Mas Orwell tinha uma missão a cumprir: escrever um livro, por encomenda de seus editores.

Em 1949, sob o singelo título de "1984", a obra foi finalmente publicada e muito bem recebida pelo grande público e pela crítica. Um dos primeiros a elogiar o livro foi o todo-poderoso político, escritor e herói de guerra Winston Churchill, que não tinha papas na língua e falava o que bem lhe viesse à cabeça.

O enredo do livro traz um retrato assustador de um país fictício que vivia sob um regime totalitarista, sufocado por uma atmosfera de terror, em que todos eram permanentemente vigiados. Em resumo, toda a ação centra-se na figura de um funcionário do partido político dominante, que trabalha no Ministério da Verdade. Porém, a sua função consiste justamente na alteração da verdade, segundo os padrões da "nova língua" adotada naquele país.

Fatos e dados eram reescritos, sempre de acordo com os interesses do partido. Assim, o Ministério do Amor era o local onde se praticavam as mais violentas torturas; já o Ministério da Paz era encarregado pelo planejamento das guerras, pois onde havia guerra dizia-se que havia paz; a escravidão era chamada de liberdade; o sofrimento era prazer, e assim por diante.

A realidade era falseada por um novo nome, induzindo o povo a aceitar como positivas as coisas negativas. No fantasmagórico mundo de "1984", o povo vivia sob permanente alienação, em que o maior dos crimes era pensar por si próprio. Em "1984", o passado e o futuro constituíam um eterno presente. Todos os livros eram reescritos, todos os quadros pintados de novo, todas as ruas, estátuas e edifícios eram rebatizados, e as datas alteradas. Nada mais existia, exceto um infinito presente, em que o partido sempre tinha razão.

Para o controle social das massas, o partido incentivava o povo a alimentar um ódio pelo inimigo (em sessões diárias de "dois minutos de ódio"), a admirar a pornografia barata, a literatura de baixo nível, as músicas produzidas por máquinas, e a jogar em loterias cujos prêmios nunca saíam. Aos poucos, nos damos conta de que já vimos boa parte desse filme, que, aliás, nos parece bem atual. Há mais de setenta anos, George Orwell traçou um painel com elementos que ainda hoje são utilizados tanto por regimes políticos totalitários, quanto por regimes democráticos.

A "nova língua" continua cada vez mais viva. Os governos e os políticos, quando já sabem que não vão tomar nenhuma providência, dizem "estamos estudando o assunto"; quando dizem "eu não sabia de nada" significa que "eu sabia de tudo e não fiz nada"; ao ouvir a expressão "um país de todos", entenda "um país em que todos pagam muito para que poucos se deem bem", e assim por diante. O mundo de "1984" ainda não acabou, o que leva muita gente a sentir muito mais do que apenas dois minutos de ódio. Não sem razão, com a pandemia do coronavirus, o livro "1984" voltou a figurar na lista dos mais vendidos no mundo.

João Francisco Neto, Advogado, doutor em Direito Econômico e Financeiro (USP); Monte Aprazível-SP.