O veneno das fake news

ARTIGO

O veneno das fake news

Delegar a órgãos públicos a checagem da veracidade de notícias resultaria na criação de um ministério da verdade


O alemão Gutenberg, no século XV, iluminou a idade das trevas, mais conhecida como idade média com o advento de sua invenção ilustre, a prensa. Essa viabilizou a universalização do conhecimento e a divulgação em massa de conteúdo, aniquilando o monopólio da igreja sob a verdade unanime. Posteriormente se iniciou a panfletagem que por sua vez fragmentou a verdade em milhões de opiniões e boatos; arma nuclear política, usadas desde a revolução francesa. Os milhares de panfletos baratos que divulgaram a lenda dos brioches de Maria Antonieta e fermentaram a violência da revolta popular sobreviveram ate os dias atuais e se propagam ainda mais exponencialmente com o advento das mídias sociais. Destarte, o veneno das fake news mostra-se cada vez mais letal pois está amalgamado em todos os veículos midiáticos e está intrínseco nos discursos políticos e combatê-lo pode ser interpretado como cerceamento da liberdade de expressão devido à relatividade atribuída à verdade.

Primeiramente, é prudente elucidar os grandes perigos das fake news na atualidade, além de disseminar desinformação de cunho cientifico em especial concomitantemente à pandemia da Covid-19 elas podem representar uma ameaça à democracia. Visto que as tais têm surtido efeitos catastróficos sob a sociedade que se polariza e dilacera cada vez mais ao se hipnotizarem pelas histórias tao bem construídas e repugnantes [a favor e contra o governo vigente]. O inquérito, em andamento, da fake news baseia-se nessa premissa ao acusarem apoiadores do governo Bolsonaro de atacarem e difamarem o Supremo Tribunal Federal. Todavia, muitos julgam essa investigação como uma brutal interferência do STF no executivo e abuso de poder ao quebrarem sigilo bancário dos investigados além de realizarem apreensões de propriedade privada como celulares e computadores dos mesmos.

Ademais, a tomada da Secom, secretaria da comunicação, da Câmara dos deputados pela parlamentar Joice Hasselmann (PSL), suscita uma analogia com a obra de George Orwell, 1984. É sabido que a defensora da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Fake News, que tem seu próprio "gabinete do ódio" para atacar adversários políticos com disparos de memes e textos em plataformas de redes sociais, pago com verba pública, manipulação que remete à empregada pelo Ministério da verdade da distopia citada, materializando essa realidade. Vale ressaltar, que foi necessário a compra de CPFs falsos para a criação de uma miríade de perfis para estimular a proliferação e destaque de conteúdos caluniosos contra a deputada Carla Zambelli, Beatriz Kicis e muitos outros de seus oponentes. Bem como Hanna Arendt desnuda o fato de que a atividade política nunca teve a verdade como uma de suas virtudes.

Infere-se, portanto, que é incoerente delegar a órgãos públicos a regulamentação midiática e a checagem da veracidade de notícias, pois resultaria na criação de um ministério da verdade brasileiro Orwellinano. É imprescindível salientar que já existem meios legais para o ressarcimento daqueles que se sintam caluniados pelas mesmas, e o único agente que poderia intervir de maneira repressora seria as empresas donas das plataformas virtuais como o Facebook, impondo mais medidas regulamentadoras como a vinculação obrigatória de um CPF valido nos perfis criados. Somente assim, por meio da iniciativa privada, que sera possível combater o mal do milênio sem contrapor o ilustre pensador e feroz defensor do liberalismo, Voltaire que dizia : "eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo".

Sophia Tarraf Conte, Estudante; Rio Preto.