Ilusão das redes

ARTIGO

Ilusão das redes

Desista de ofender ou destratar. Respostas racionais e educadas são toleráveis


Suponha que você seja um participante das mídias sociais. Posta foto da sua viagem de férias. Sente-se bem por ter dado publicidade do fato ao seu milhão de amigos. Milhão? Só Roberto Carlos os tem. Nós, temos que nos contentar com uma centena deles e olhe lá!

Comecemos por isso. Dados do Facebook mostram que um usuário comum tem, em média, 120 amigos e que ele conversa habitualmente com cinco por cento deles. Em raras circunstâncias, o número pode subir, mas não muito. Há quem peça para ser amigo até do bispo (perdão, Dom Tomé).

Dependendo do tipo de mídia, caso do Skype, o percentual cai mais ainda. Em termos de celulares e chamadas de voz, 80% das ligações são dirigidas para quatro ou cinco pessoas e, excepcionalmente, em casos de necessidades pessoais, mais algumas poucas. Via de regra, são sempre os mesmos.

Os dados são da antropóloga Stefana Broadbent, autora do livro "Intimacy at Work" (Intimidade no Trabalho), desapontada por ver um grande aparato tecnológico ser utilizado por tão poucas pessoas. Ela diz que os sociólogos sentem que, antes de maximizar os contatos, as redes afastam e isolam as pessoas.

Tem coisas boas também. Estamos assistindo a uma revolução nos costumes e notória transformação social. Não faz muito tempo, as pessoas ficavam trancadas em seus locais de trabalho, cumprindo a jornada legal. Não saiam e a liberdade só vinha ao bater o ponto no final do expediente.

Hoje, trabalhadores recebem e enviam mensagens para parceiros, familiares e amigos, preocupando empresas e instituições. Funcionários e alunos, segundo patrões e professores, quebram o isolamento e se distraem de suas tarefas. O Estado do Texas (USA) impõe multa de 15 dólares ao aluno pego usando o celular.

Há um engano no que se refere às empresas. Dependendo do ramo e do tipo de trabalho, a jornada aumentou e as pessoas trabalham mais do que o turno legal. Claro que um operador de máquinas não usará o telefone quando estiver trabalhando. Ele fará isso nos intervalos ou no banheiro, conforme documentado.

Imagine se seria possível um técnico de futebol impedir seus jogadores de utilizar computadores e celulares nas concentrações. Fábio Carille, então treinador do Corinthians, respondendo a isso, foi taxativo: "não aguentaria uma semana". Deve ser realmente muito difícil controlar o uso de celulares no ambiente de trabalho.

Seria interessante saber das tropas radicais, aquelas que bloqueiam e expulsam amigos por motivos políticos ou religiosos, se elas manteriam o procedimento caso conhecessem essas estatísticas. Talvez, ao saber que suas postagens não alcançam tanta gente e são vistas sempre pelos mesmos, recuassem frente a atitudes extremas.

Da próxima vez que falarem mal do tio da prima da namorada ou do seu político de estimação, sabendo que o disparate logo será letra morta, opte por ser condescendente. Desista de ofender ou destratar. Respostas racionais e educadas são toleráveis. Estamos aprendendo a lidar com as redes, por enquanto elas ainda são uma ilusão.

Laerte Teixeira da Costa, Vice-presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores) e ex-vereador de Rio Preto.