Cenas grotescas

ARTIGO

Cenas grotescas

Hegel já sentenciara: "os povos que não conhecem a sua história estão condenados a repeti-la"


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Duas cenas grotescas ocorridas recentemente demonstram que, enquanto existir o capitalismo selvagem que domina os E.U.A e o Brasil, o negro continuará muito mais do que escravo. A primeira cena, filmada no Estado de Minneapolis, EUA, mostra um policial americano matando um negro, que posteriormente descobriu-se tratar-se de George Floyd. O que se viu ao vivo foi simplesmente homicídio doloso e não culposo, e ninguém tentou salvá-lo, numa flagrante omissão de socorro. Por que ninguém socorreu George? Porque é mais um negro e pobre que está sendo eliminado. Cena 2. Uma empregada doméstica que trabalha para uma senhora de engenho no Recife, que acorda todo o dia as 5 horas, levando seu filho para a casa grande, pois em sua senzala não há quem cuide dele. A senhora de engenho tem o sobrenome Corte Real. Aliás, o nome da senhora é, em verdade, um pleonasmo, pois quem é da Corte só pode ser Real. Pois bem, a senhora resolveu enviar a sua vassala aos jardins de Versailhes para passear com o seu cachorro, que estava estressado de ficar dentro da casa grande.

Como não tinha com quem deixar o filho menor de cinco anos, a empregada o deixou sob a guarda da patroa no apartamento.

As câmeras do circuito interno do prédio provaram, conclusivamente, que a madame estava cansada de olhar o filho da empregada, abriu a porta do elevador, deixou o menino adentrá-lo, apertou o botão do nono andar e o garoto foi encontrar, como Floyd, o que já estava preparado em seu destino de filho da senzala. Num flagrante crime de homicídio doloso, a madame compareceu à Delegacia de Polícia e foi indiciada pelo crime de homicídio culposo, após pagar fiança.

Como houve culpa e não dolo no delito praticado pela senhora de engenho, se a criança não tinha força para abrir a porta do elevador sozinha e muito menos altura para apertar o botão para ir ao nono andar do Edifício? No entanto, o sr. delegado de polícia achou uma saída honrosa para dar uma satisfação à sociedade, indiciou-a pela prática de homicídio culposo, pois ela pagou fiança e até o inquérito virar processo e este chegar aos Pretórios, ela ficará livre com o benefício da prescrição retroativa. Diante destas duas cenas chocantes, o que ocorre é apenas a repetição de uma história inaugurada há mais de trezentos anos, quando os lusitanos e ingleses buscavam negros na África para enriquecê-los. Hegel já sentenciara: "os povos que não conhecem a sua história estão condenados a repeti-la".

Durante a escravidão, o negro era tratado muito melhor do que o negro das favelas, pois o senhorio o queria forte e saudável, para trabalhar nas lavouras até o seu esgotamento. O afrodescendente de hoje tem de acordar às cinco horas da manhã, andar duas horas de ônibus, estar sujeito a ser confundido com um procurado pela Polícia e, como diria Chico Buarque "morrer na contramão, atrapalhando o tráfego".

Se você acha que a escravidão acabou, lembre-se da frase do insuperável Karl Marx: "Para que a burguesia iria manter a escravidão, se ela pode inventar o salário mínimo?!"

Ruben Tedeschi Rodrigues, Advogado; Rio Preto.