ARTIGO

Enem adiado: pior pra quem?

O adiamento do Enem em 30 ou 60 dias é muito pouco, tendo em vista os desafios consequentes à pandemia


A educação no Brasil já mostra a que e para quem veio há muito tempo, mas é interessante fazer um recorte histórico a partir da década de 90, quando aqui o neoliberalismo começa a escancarar suas garras com imensas privatizações e sucateamentos das instituições que ainda não consegue privatizar, pois precisa de apoio popular para fazê-lo. Nada melhor que difundir que "tudo que é público é ruim" e ter a educação como a grande bolas da vez.

Desde então, um projeto vem sendo desenvolvido no imaginário social para desqualificar a educação pública, no qual se inclui: desvalorização do professor com baixos salários, altas cargas horárias, ausência de capacitações para lidar com a realidade e, por conseguinte, com os educandos, repressões brutais às manifestações por condições dignas de trabalho, escolas insalubres em muitas regiões brasileiras, ensino raso e construído com a intenção de preparar o aluno de escola pública - filhos da classe trabalhadora - apenas para o mercado de trabalho.

É nesse contexto, que se soma a pandemia e os efeitos dela, que nossos educandos estão situados. Estudantes de escolas pública estão em isolamento social com famílias que não podem trabalhar, mas recebem pouco ou nenhum auxílio governamental para se manter a salvo. Estudantes que fazem parte do imenso grupo de brasileiros sem acesso à internet ou com acesso de baixa qualidade, sem equipamentos tecnológicos necessário para acompanhar as aulas de maneira remota. Estudantes que lidam com a doença e com a morte sem suporte psicológico para lidar com o contexto.

O adiamento do Enem, foi reivindicado por uma parcela significativa da sociedade civil, que pese os estudantes de escolas públicas, cursinhos populares e professores. Como podemos manter um filtro de seleção de pessoas para acesso as universidades públicas num momento em que tudo está parado e em revisão? Se as desigualdades estão acentuadas na pandemia, vamos contribuir para que elas aumentem ao forçar nossos alunos a estudarem de qualquer maneira, sem muitas vezes ter possibilidades? Como manter o ENEM sem ao menos ouvir esses alunos?

Não cabe às escolas apenas pensar em formas de superar esse momento em que vivemos, cabe aos nossos governantes, em todos os âmbitos. A pausa é necessária, o repensar sobre o presente e como lidar com ele, assim como, no futuro que queremos e precisamos construir, é urgente e só acontecerá se for proporcionado àqueles que historicamente sempre estiveram à margem da sociedade.

O adiamento do Enem em 30 ou 60 dias é muito pouco, tendo em vista os desafios consequentes à pandemia, inclusive e provavelmente sobretudo para a educação de brasileiras e brasileiros.

Jéssica Daiana de Oliveira, Professora de História; psicóloga; orientadora profissional e educadora emocional; coordenadora do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus; Rio Preto.