ARTIGO

'Geração P'

As máscaras estão fadadas a nos acompanhar tempos a fio. A liberdade virá apenas com a vacina!


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Em tempos pandêmicos o que me restou, além da reclusão, foi a leitura e a escrita. Tenho-me dedicado a poucas tarefas caseiras (varrer a frente da casa, lavar louça). Estou assistindo filmes que não pude ver e revendo outros. O restante das horas leio algumas obras, mas principalmente tenho desenvolvido a reflexão do que está porvir. De pronto, classifico essa última atividade como pueril e quase empírica. Sei que não tenho competência para tanto, mas como me sobra o tempo... Já escrevi, nesse espaço, sobre as relações humanas pós-covid; adiamento de eleição; derrocada do pensamento neoliberal e consequentemente avanço da presença estatal na economia.

Pois bem, nesse artigo, retorno ao tema das relações pessoais pós pandemia. O Título refere-se a nova geração encetada com a pandemia. Penso que já notaram que o "P" vem da maior pandemia enfrentada pela humanidade.

Alto lá! Alguém pode me contradizer citando que a maior foi a "gripe espanhola" do início do século passado. Com toda razão, em números de mortos, o contraditor! Apesar de mais de cem anos idos, ainda não se sabe ao certo a quantidade de pessoas que tombaram naquela guerra contra o inimigo invisível. Estima-se que entre 20 a 40 milhões de perdas humanas, muito mais que na primeira guerra mundial que teve 10 milhões de abatidos.

No Brasil, a gripe chegou em navio inglês (Demerara) e atingiu, principalmente, cidades portuárias (Rio de Janeiro, Recife, Salvador). A Fiocruz atesta que no Rio (Capital, à época) quase 15 mil vítimas fatais, enquanto São Paulo teve pouco mais de duas mil.

Mas também é certo dizer que a "espanhola" teve duração maior que dois anos e a contemporânea pandemia mundial foi decretada há pouco mais de dois meses. E mesmo assim, o mundo já contabiliza mais de 5 milhões de contaminados e mais de 300 mil óbitos. Os números são o que menos importa para o artigo que escrevo; uma vez que ainda não se sabe qual o período de duração da Covid-19?

O certo é que aqui estamos na primeira fase da doença. Países europeus que estão semanas à frente do contágio, nesse instante, tentam retornar à normalidade. Digo tentam, pois, o novo normal, certamente, será distinto do antigo.

A retomada pós-pandemia está sendo gradual e com a permanência de regras duras de distanciamento social e de higiene pessoal. As máscaras estão fadadas a nos acompanhar tempos a fio. A liberdade virá apenas com a vacina! Calcula-se, com certa dose de otimismo, ocorrerá somente no início do ano que vem.

Assim, os bares, restaurantes, parques, cinemas e shoppings abrirão suas portas, mas não sem que possa haver aglomeração.

Aquele costumeiro fim de tarde no "buteco" sofrerá impacto. Ao entrar no estabelecimento, vai se deparar com a diferença. Sobre a mesa existirá um vidro separando as pessoas. E entre as mesas novos vidros, isolando-a demais frequentadores. Juntar as mesas com o grupo de amigos, nem pensar. Aqueles abraços e beijos não serão recomendados! O casal de mãos dadas, também não. Um beijo dos jovens apaixonados, será uma afronta à sociedade. Quiçá, poderão ser enquadrados na lei de segurança nacional?

Tempos difíceis. Asseguro que o novo normal vai ser chato "prá caramba". Vacina, sua linda, venha logo! Venha exterminar os receios e angústias da geração P!

AILTON ANGELO BERTONI, Advogado; Rio Preto.